A Cabeça de Saint Mark (e II)

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Reus encostou-se para trás sobre do rabo e tremeu, tentando evitar o seu tacto. A calor acorava-o e achou claustrofóbico o pequeno quarto.

A rainha BorboleMtidosa levantava três metros no alto, a fina pele loura da maneira de um veludo ondejante de verticilos em filigrana. O corpo era aproximadamente da feitura de um relógio de areia com a parte inferior mais grande e inchada por diante, a estirar-se brilhante e sem pelejo. O bico do corpo, grande de mais para lhe chamar cabeça, tinha duas restras de olhos, duros como lascas de ónix e todo derredor de riba abaixo. Debaixo deles três buracos elásticos abriam e fechavam ritmicamente. Seis pequenas patas articuladas sobre juntas redondas tremavam do enorme vulto. Vários apêndices agromavam das partes superior e inferior do seu corpo, do longo de chouriços apertados à toa, acô e acolá. Todos os membros acabavam em vários manipuladores, dois dos quais estricavam-se para o alcançarem.

O medo paralisou-o. Para controlá-lo, a sua mente procurou automaticamente modelos que puseram a espécie BorboleMtidosa numa categoria familiar. Tinha pele e ossos, sem quitina ou carapaça, assim que ao melhor esta espécie não evoluíra de um insecto. Mas ainda assim parecia um pesadelo.

“ReusSaintMark,” a voz artificial provinha de um tradutor que ela levava sobre um dos seus apêndices superiores. O som recoberto por uma vibração e chilros que vinham de um orifício na parte superior do corpo ”devemos apressar-nos antes de eles aparecerem.”

Reus recuou e bateu na parede elástica da sala que amolou ligeiramente. Afastou as mãos e olhou como ela avançava. O centro arredondado do seu inchado corpo inferior acabava num pequeno cordão umbilical e estava aberto como uma torre de artilharia, ressumando um líquido visguento. De perto, a sua pele de veludo era realmente um fino cútis tão firmemente pregado que parecia arrepiado.

Ela revirou-o todo na volta ao bruto. “Mete o teu rabo no ovário,” mandou a voz artificial. Os chios do seu corpo superior eram frenéticos, como um ninho de passaros atrapalhado.

Não é o meu rabo. Pôs-se teso e duvidou.

“Bole aginha, faz ou esmago-te”. Viu-se envolto por um forte cheirume a amoníaco e erva podre.

Ovário. Enviou um vómito para abaixo e fechou os olhos, depois ergueu o rabo e procurou os humedecidos orifícios cloacais da BorboleMtidosa às apalpadas. Um apêndice de pele lisa agarrou o rabo e empurrou-o até a metade do borato a contrair-se e abrir-se. Fechou-se derredor do membro teso do alienígena como um esfíncter. Ainda que não era verdadeiramente parte de si mesmo, Reus quase desmaia com o nojo.

“Mexe o rabo derredor para matá-los todos!”

Matar o que? Onde me meti eu? Era isto um infanticídio? Embotou a mente e obedeciu, de outro modo seria aspirado para o vazio de contado. Ao domegar o cóccix sentiu o rabo virar derredor dentro dela, como se o estivera fazendo pela sua própria conta.

“Solta o veneno. Aginha!” O corpo da rainha remexia-se e amarrava-se, agarrando-se ao de Reus como se nunca mais o fosse deixar marchar.

Como solto o veneno? Maldisse CCtavilhão por lhe não dizer como tinha que fazer com o enxerto. Reus moveu o rabo mais e mais aginha, aguardando que soltasse o veneno. O corpo encharcado em suor, a misturar-se com os fluidos alienígenas da rainha. Finalmente, sentiu o rabo a esguichar ácido dentro do ovário. Escapou-lhe um berro dos beiços quando os malhadores apêndices da BorboleMtidosa o açoitaram.

Ela empurrou-o para fora e estarreceu-se umas quantas vezes, a parte baixa do seu corpo, brilhante, a estremecer-se. Depois agarrou os orifícios cloacais com três apêndices e abriu-os.

Reus recuou ante o som húmido e chapuceiro mentres os tecidos rachavam. Um monte de ovóides rosados amoreou-se no chão, acompanhado de um cheirume que coalhava no nariz. Abalaram umas poucas vezes, mas depois quedaram em nada e estalaram barulhentamente soltando ainda mais fedor no ar já saturado.

Apertou o nariz e respirou pela boca.

Tarde de mais, botou-se-lhe para fora o calheiro e vomitou sobre do chão elástico em grandes enxurradas. Quando se sentiu vazio mas ainda sujo, arredou uns passos dos líquidos imundos, a abanear, e limpou a boca com a manga da funda.

Foi maravilhoso, esguichámos a um tempo. Não me dera conta de que também ti necessitavas uma purga.” O corpo inferior da rainha começou a encolher, enrugando-se em diminutas encolhas até parecer veludo, semelhante aos seus outros membros.

Uma reacção automática, simplesmente–” apontou para a chocalhada escangalhada no chão.

Ainda mais extraordinário; nunca tive tal reação de prazer com um alienígena. Obrigado, ReusSaintMark. Desculpas se lhe falei com poucas maneiras, mas era indispensável abulir . Estimo grandemente o seu serviço. Não poderia esperar ganhar o vindouro combate estando grávida”.

“Ajudei-te a matar parte da tua prole.”

“Esses?” Acenou para a poça cheirenta. “Esses eram ovos parasites. Perdi o meu macho há um tempo. Não ter um macho para purgar-me significa ser derrotada pelas rainhas novas, por isso me vali dos serviços da estação.

O chão elástico e verde pregou-se sobre os restos dos ovos da rainha e o vómito, deformou-se primeiro, depois achançou, engolindo toda a chocalhada.

Reus cavilou no que significaria ‘perder o macho’ no contexto da BorboleMtidosa: morto, destituído, ou se calhar devorado. Depois lembrou que as BorboleMtidosas eram herbívoras. O rabo cheirava mal e sentia-o peganhento. Este acto nauseabundo não tinha nada a ver com a reprodução ou ainda com o gozo sexual; era uma simples purga. De Tenente-primeiro a porteiro e alguma vez prostituto, de supetão descendeu a vulgar catártico, um laxante para limpar de parasites uma rainha alienígena obstipada. Estava totalmente desgostado consigo mesmo e deu a volta para marchar.

Aguarde,” disse a rainha. Um som de rechouchio e arrecendo a ramilhete de flores de primavera emanou de ela. “Agora tenho uma obriga de honor consigo. Antes de que a nave o deixe marchar devo conceder-lhe um desejo, um serviço, ou um favor.”

“Acredito que transferiu o pagamento para a minha conta.”

“A Mentenavio transferiu os seus honorários, mas as feromonas da vigiladora do honor informam-me de que tenho uma obriga de honor. Tenho que lhe conceder qualquer coisa dentro da medida das minhas possibilidades.”

A Reus abriu-se-lhe um sorriso na cara. “Bem, há uma coisa que pode fazer. Leve-me ao Elo de Orion.” A esperança abrolhou no seu interior. Se puder voltar ao espaço da Liga Interior e dar-lhe a Defesa o informe do massacre do Elo de Virgis, salvaria vidas. Ou não, o intel ia um ano antiquado, mas era o seu dever.

O Elo de Orion fica fora do meu caminho. Consultei a vigiladora do honor e achou que o seu desejo é demasiado difícil para lho conceder. A nave vai a rebentar com a carga e a tripulação. “ Um olor mais amargo, de limão, acompanhou a retirada da BorboleMtidosa. Uma rainha nova mostrar-lhe a nave.”

Acendeu-lhe a carrage, que prendeu em genreira. Estava a brincar com ele?

Guarda as tuas emoções’. Disse-lhe a estação AI. ‘Muitas espécies comunicam-se com feromonas.’ A Reus não lhe importou, estava canso dos Sophontes de mente lucrativa da Estação de Minavila. O honor, o dever e a dignidade, todos três perdera durante a sua estadia acô. Mentres seguia uma versão mais pequena da rainha ao longo da coberta da nave deixou que todos os seus ressentimentos e frustrações saíssem para fora. Se che cheira, amola-te!

Uma vez fora da nave BorboleMtidosa foi cara à Clínica de CCtavilhão. Pelo menos este acto repugnante permitira-lhe ganhar unidades abundo para permanecer vivo mais outro mês. Era melhor do que estar morto, e mentres estiver vivo, tinha esperança de levar a cabo o seu dever. A certeza de que seria afastado dos mundos da Liga Interior não o desencorajava, mas entristecia-o.

Reus deu-lhe um pontapé a uma moreia de lixo que os robots da limpeza deixaram. Depois dos inumeráveis enxertos e manipulações genéticas do ano passado estava deseperadamente contaminado pelos standards Puristas. Quanto mais pensava nisso, mais lhe parecia fechada de mente a Liga Interior. De supetão começou a perceber que agora era um Foramundo. Pela primeira vez na sua vida achou ele mesmo do outro lado do esnobismo da Liga Interior. A vergonha inundou-o por ter servido um governo elitista durante tanto tempo. Decote soube que a gente do Foramundo Terratizador não tinha meios para terraformar os mundos periféricos nos que se estabeleceram. Isso provocou-lhes mutações forçosas e alterações genéticas que algumas vezes resultavam num aspecto desagradável. Não importava que foram cirscunstâncias causadas pela economia da Liga Interior e o feito de eles controlarem os mundos mais ricos, a maior parte da humanidade era considerada im-Pura.

***

Reus estava de pé diante da rainha BorboleMtidosa outra vez e mantinha-se contra a parede elástica do quarto mentres esta fechava os caravilhões de uma única vez. Ainda que o poderia ter contactado através da ligação da estação, ela requerera a sua presença. A esperança medrou nele de novo; ao melhor a sua solta de feromonas funcionara.

Visto que Cctavilhão já lhe extirpara o rabo, Reus não estava equipado para lhe oferecer o mesmo serviço, não que ele for quem. Agora era um Sophonte são, arrebatadoramente contente, e mesmo podia permitir-se nadar na água. Convidara-se a si mesmo a comida de verdade em vez da pasta nutritiva que estivera a comer anteriormente.

“ReusSaintMark, o meu honor não me permite marchar sem você.” Exsudava a fragrância de flores exóticas.

Muita melhoria desde o fedorento infanticídio que cometemos. Sem nenhum esforço, ignorou as imagens e aguardou, atrevendo-se a ter esperança. Finalmente poderia levar a cabo o seu dever. Ao melhor não era tarde de mais para mudar as coisas.

A vigiladora do honor pode ser caprichosa por vezes. As químicas alienígenas confundem-na, mas achou, depois de tudo, que eu tinha uma obriga de honor com você. Isso significa que estejamos presos a esta estação até que cumpra o código de honor. Assim que discorri uma maneira de o levar a você até o Elo de Orion.”

Inundou-o uma sensação de alívio. “Obrigado. Faço as malas e volvo.” Deu a volta para marchar aginha antes de que a vigiladora do honor ou a rainha mudassem de opinião.

“Já estamos de caminho.”

“O que?”

“Tão pronto como embarcaste as minhas feromonas ceivaram a nave. Partiu da Estação de Minavila. Vamos na rota do buraco de minhoca. Perdemos muito tempo com a minha purga e o seguinte combate. Os porões da nave estão cheios de mercadorias perecíveis. Uma maior demora não era rentável.

Reus encolheu os ombros. O seu traje sempre poderia ser substituído. “Muito bem, daquela, onde me instalo?”

“Instalar-se?”

“Para dormir, já sabe. Onde vou passar a viagem?”

“Acô.” Dois apêndices do seu corpo superior arrombaram para fora da parede do quarto uma esfera metálica e verde.

Reus riu, mas com um aquele de apreensão. “Sou pequeno, mas não tão pequeno.”

“Só podemos transportar a tua cabeça, o resto do teu corpo tem que desintegrar-se.”

Afundiu-se-lhe o estômago e sentiu-se como aparvado. Um suor frio surgiu na sua cara. Em segundos a sua funda estava ensopada mais rápidamente do que o pudesse fazer um arranjo da estilistifábrica. “Ao caralho com o teu honor! Não podes fazer isso.”

“Posso, posso. Esta unidade de estase alojará a sua caixa craniana. Está desenhada especialmente para humanóides do seu tipo.” Virou a esfera verde derredor.

De supetão, pareceu ameaçadora. A Reus apertou-se-lhe o ganhote e os juramentos que lhe queria botar à rainha quedaram sem pronunciar.

“Achei informação sobre a sua espécie; têm estabelecimentos que lhe podem cultivar uma nova parte inferior do corpo uma vez que recebam a parte superior.”

“Não compreende.” A sua voz enfraqueceu. “A Esfera da Liga Interior não admite esse tipo de tratamento; só o Foramundo Terratizador practica o enxerto corporal, a ciber fusão e alterações genéticas radicais.”

“Você é humano, não sim? Que importância tem qual das suas esferas faz o enxerto?”

Avergonhou-o até fazê-lo calar. Ainda agora, ele considerava-se a si mesmo um cidadão da Liga Interior.

“Uma obriga de honor não significa sacrifícios extremos. Não posso destruir a carga e mercadorias para alojar todo o seu corpo porque isso suporia um conflicto de honor,” explicou, e deu um passo cara a ele.

Reus começou a tremer, incapaz de controlar o medo por mais tempo. Deu-lhe uma pancada mas ela afastou-lhe o braço com um golpe e cobriu-lhe o espaço pessoal com o corpo.

“Desculpas se isto é tão angustiante, mas prometo-lhe que farei chegar a sua cabeça. Agradeço-lhe mais uma vez o seu serviço, ReusSaintMark.”

Preso nos apêndices da rainha, a esfera verde moveu-se sobre da sua cabeça, formando uma abertura no hemisfério inferior. Instalou-se na cabeça de Reus com uma fria finalidade.

Bateu os braços, os dedos a rabunharem a unidade de estase. De supetão sentiu uma dor a aguilhoar-lhe o pescoço e os dedos desfaleceram.

Ambos os dois braços desfaleceram.

Reus não podia sentir o corpo, mas laiou-se em silêncio conforme ia fechando a escuridade ao seu redor. Flutuou num limbo, agarrado à esperança de chegar ao Elo de Orion. Tenho que avisar a Defesa, tenho que avisar a Defesa, recitava para não perder o sentido até que uma brétema branca o acorou.

* * *

Tradución por Afonso Xabier Canosa Rodríguez.

Nota do tradutor: O presente relato usa abundante léxico comum das falas galego-minhotas. A maior parte aparece recolhido no dicionário on-line do FLIP http://www.priberam.pt/dlpo/, no entanto algumas variantes e significados mais específicos aparecem melhor reflectidos no Estraviz: www.estraviz.org