A vingança chega para todos

0
986

A praça era cercada por prédios de dois andares, feitos de madeira clara que refletiam os raios do sol e davam ao local uma iluminação própria, única. No centro estava um singelo púlpito, largo o suficiente para três pessoas e erguido sobre pedras escuras. Largas manchas de sangue seco se estendiam até o chão. Subindo os estreitos degraus estava o executor, vestimentas da cor do vinho e com o símbolo da cidade de Gram bordado em suas costas.

O executor olhou a multidão que se aglomerava para o bárbaro espetáculo que em breve tomaria lugar ali. Com um movimento mecânico, porém vigoroso, levantou sua espada acima da cabeça. A platéia vibrou e seus gritos reverberam por toda a cidade. O cabo revestido com couro era mais longo, apropriado para acomodar as duas mãos, a lâmina sem ponta era adornada com pequenos desenhos representando todo o tipo de assassinos, ladrões e malfeitores. Depois da efusiva saudação do populacho, o executor guardou novamente a arma e esperou.

Gram é uma cidade localizada na costa oeste de Breasal, suas praias são agradáveis e o mar é de um verde intenso. Uma cidade independente e sem reino que por muitos anos foi o porto preferido de piratas que ali encontravam o local perfeito para consertar seus barcos e vender seus ganhos. Mercenários andavam livremente por suas ruas e Gram chegou muito perto de deixar de existir, engolida por sua violência. E parecia que este seria um caminho irreversível. Contudo, um líder surgiu, nascido e criado ali, Denoak chegou ao posto de regente decidido a salvar sua cidade.

Foram anos sangrentos os que se seguiram. Para Denoak, a única forma de limpar a cidade era com o sangue dos malfeitores. E assim ele fez. Depois de alguns anos de luta intensa, Gram se tornou uma cidade segura e próspera, com o fortalecimento do mercado e comércio, foram anos de tranqüilidade de paz.

Porém, a descoberta de ouro nas proximidades da cidade mudou tudo. De repente Gram era um grande negócio, vivo, movendo-se sem ordem, feito de aventureiros que arriscavam a vida para descobrir um pouco de ouro. Um lugar que poderia se ganhar muito dinheiro, não com o ouro, mas explorando os pobres coitados que seguiam para lá repletos de esperança de enriquecer, mas tudo que conseguiam era perder o pouco que tinham trazido. E a paz de Denoak logo acabou. O governante foi assassinado e o sangue voltou para as ruas.

Logo, as ruas se tornaram mais uma vez lugares perigosos e violentos. Os guardas perderam o controle, ou foram controlados pelas pessoas erradas, e tudo que se desejava era nunca ter que visitar Gram. Cada esquina era disputada pelos guardas e os rebeldes, pessoas que acreditavam que poderiam tomar o poder e fazer a paz de Denoak voltar. Gram vivia sua guerra interna e o povo pagava com sua vida por ela.

A multidão se aglomerava cada vez mais na praça, era uma execução importante. Um dos líderes dos rebeldes foi traído por sua amante e entregue aos guardas. Hoje, sua cabeça iria rolar pelas pedras polidas do chão da praça.

As conversas viraram cochichos e depois pararam. Tudo que se ouvia era a corrente dos pés do prisioneiro. O rebelde se arrastava ladeado por dois guardas de cota de malha e elmos que cobriam seus rostos, pesadas maças pendiam de seus cintos. Seguravam o homem pelos braços e o arrastavam.

Era um humano de olhar sereno, barba por fazer e traços finos. Seu rosto carregava as marcas do confinamento, cortes e escoriações, e as pernas moviam-se com dificuldade.

A multidão contemplava a caminhada em silêncio, centenas de olhos acorrentados pelo ritmo trôpego do prisioneiro. Não por apoiarem a causa do condenado, mas por terem um respeito à vida, algo tão fácil de se perder em Gram; e ali seguia alguém que logo perderia a sua. O executor aguardava ansioso pela vinda de sua vítima, sentia um prazer extremo quando a lâmina de sua arma descia até a pedra fria, rasgando carne e ossos.

Os guardas levaram o prisioneiro até o púlpito. Passivelmente ele se ajoelhou e colocou seu pescoço sobre a pedra. Pela primeira vez o rebelde moveu os olhos, um leve trepidar de suas íris verdes em direção aos guardas que circundavam a praça. E eram inúmeros, com armaduras pesadas, escudos e espadas, vigiando a multidão e as ruas.

Foi esse pequeno detalhe que chamou a atenção de Nahovi, ela olhou para os guardas, procurando por mais algum sinal, mas não percebeu nada.

O executor mostrou novamente sua espada para o povo, porém, desta vez foi saudado com o silêncio. Um longo passo e ficou ao lado de sua vítima, a lâmina subiu alto no céu e então veio o caos.

A primeira flecha acertou o peito, a segunda passou apenas a alguns dedos de sua perna e a terceira perfurou sua face. O executor caiu para trás, levando sua temível espada para longe da vítima.

A multidão urrou e logo todos começaram a correr, sem rumo, para qualquer direção desde que fosse longe do púlpito. O prisioneiro permanecia ajoelhado, esperando e admirando o caos que tinha criado. Gritos de luta surgiram por todos os lados, os guardas eram atacados por rebeldes. O som do aço batendo em escudos e armaduras inundou a praça.

Nahovi e seus dois companheiros permaneceram imóveis, procuravam entender tudo que se passava ali antes de tomar alguma atitude. Sabiam que logo o ataque cessaria e a tranqüilidade voltaria. Não precisavam se envolver. Porém, a guerreira percebeu algo; no meio de toda a confusão, uma pessoa permanecia calma. Vestia um longo casaco de algodão, roto e encardido, e um profundo capuz cobria seu rosto. Mas parecia ainda olhar para o púlpito, esperando que o executor desse o golpe fatal.

De repente Nahovi correu, passos decididos, desviando de pessoas e homens que combatiam. Os rebeldes tentavam se aproximar do púlpito, libertar o seu líder, e os guardas o defendiam. A luta estava intensa e ela tinha dificuldades de passar. Um dos guardas caiu em cima dela e, sem pensar, Nahovi puxou sua espada e atacou. A lâmina perfurou a cota de malha e atingiu as costelas do sujeito que caiu em agonia.

Seu ato não foi porque acreditava na causa dos rebeldes, mas puro instinto. Nahovi era uma guerreira, uma alma do combate, e nunca hesitava em usar a espada. Abriu caminho até a figura encapuzada e, com uma delicadeza surpreendente, a conduziu para longe dali. Passivamente o desconhecido aceitou os comandos de Nahovi e sem dificuldades, nem rebeldes nem guardas estavam interessados neles, deixaram a praça.

As ruas ao redor também estavam tumultuadas, ordens eram gritadas e mais guardas chegavam. Mas todos sabiam o desfecho, o líder rebelde seria resgatado e tudo que restaria seriam corpos e o sangue encharcando o chão.

 

Era magro, os olhos afundados no rosto fino e ossudo, a pele enrugada, larga demais para seu crânio. O nariz torto indicava que estava quebrado há muito tempo. De fato, todo seu corpo e espírito estavam quebrados, o senhor de Perfain se certificara disso. Sua pele era leitosa, alva como a neve, e o rosto desfigurado. Não era possível identificar nenhum traço característico em sua figura, tornando impossível até mesmo dizer qual seria a sua raça.

Os três companheiros admiravam a figura, com receio e curiosidade.

Equilibrava-se sobre uma banqueta de madeira e tinha os dedos entrelaçados sobre as pernas. Por baixo do casaco vestia uma roupa simples de algodão. Olhava para o chão, mas não demonstrava medo.

Ela aproximou-se com passos cautelosos, a pele bronzeada escapando pelas fendas de sua roupa. Segurou com delicadeza o queixo do sujeito e fez com que ele encarasse seus olhos violeta. São poucos que conseguem manter a expressão inalterada depois de olhar para Nahovi, são poucos que não a desejam.

– Como soube que era um dos servos de Perfain? – Cnotak era um humano do norte, de cabelos escuros presos em uma longa trança e exibia uma cicatriz que atravessava seu rosto de cima a baixo.

Antes de Nahovi responder, Wislic, se aproximou da criatura. O anão coçava sua espessa barba ruiva que chegava até o cinto. Apontou para os pés da figura.

Os sapatos não existiam, nem mesmo os pés, tudo que podia ser ver eram as pontas de dois ossos descarnados.

– Perfain retira a carne dos pés para que não possam caminhar por muito tempo – a casualidade com que Wislic fez esta observação não retratava o horror que aqueles ossos representavam.

Perfain é o nome da fortaleza e não de seu senhor, porém o nome do humano que a governa caiu no esquecimento, levado pelo tempo e pelo ódio que despertava nos moradores de Gram. Com o passar dos anos o humano herdou o nome de sua fortaleza e se tornou Perfain.

Wislic se afastou até a mesa e serviu-se do vinho. Deu um longo gole e limpou a barba com as costas da mão.

– Podemos confiar nele?

– Sim – ela olhou para o anão – a violência constante que sofrem e os abusos mentais fazem com que não tenham vontade própria, os servos de Perfain não sabem o que é enganar. Tudo que fazem é seguir ordens.

– Mas se o cérebro é tão fraco, não tem discernimento para servir a um único mestre – Cnotak também se serviu de vinho – poderiam contar seus segredos ao primeiro que encontrassem na rua.

– Precisamente – Nahovi tinha um sorriso malicioso nos lábios vermelhos.

– Não – Wislic balançou a cabeça – Perfain não seria tolo a arriscar seus segredos desta maneira.

– Talvez – Nahovi revistou os trapos da criatura que olhava para a parede sem esboçar qualquer reação – mas às vezes eles podem nos revelar um ou dois segredos que seriam o suficiente.

Orgulhosa ela retirou um envelope de algum bolso escondido na vestimenta da criatura, feito de pergaminho fino e com um lacre azul. Colocou a carta entre os copos de vinho da mesa. Seus amigos olharam com receio.

– O símbolo do carvalho – murmurou Wislic.

Dizem que a fortaleza de Perfain é inexpugnável e ninguém sabe o que realmente acontece dentro de seus altos muros. Boatos contam que Perfain é um necromante e luta com todas as suas forças para derrotar a morte. Outros, que seu desejo é governar muitas terras e muitos povos, enriquecer. O certo é que seu nome desperta o temor e o respeito e seu símbolo, o carvalho, é considerado mau agouro em Gram.

– Ainda assim, por que Perfain se arriscaria a mandar uma mensagem através de um de seus servos – Wislic pegou o envelope – não faz sentido.

– Acho que antes de fecharmos nossos olhos para esta oportunidade – Nahovi tomou a carta de seu amigo – deveríamos tentar descobrir um pouco mais sobre ela.

– Não abra – as palavras pularam da boca de Cnotak.

Ela sorriu, algo que derreteria as geleiras mais profundas de Breasal.

– Não se preocupe, o conteúdo da mensagem não me interessa. Tudo que precisamos descobrir é para quem ela está destinada.

A guerreira passou o envelope diante da pobre figura que tentou pega-lo. Porém seu esforço era facilmente contido.

– Ele quer a mensagem de volta – Wislic observava com interesse – tudo que ele consegue fazer é pegar a mensagem e entregar a seu dono. A solução é fácil, basta devolver o envelope e segui-lo. Ele nos levará diretamente a resposta.

– Exato – Nahovi entregou o envelope para a criatura que logo o escondeu em suas vestes.

– Mas se ele estava na praça – Cnotak parecia mais concentrado em polir a lâmina de seu machado do que em suas palavras – em pé ao lado do púlpito, é porque a mensagem era para o executor ou o rebelde.

Nahovi e Wislic se olharam.

– Mas por que Perfain mandaria uma mensagem para um rebelde?

– Porque, meu caro Wislic, os rumores devem ser verdade. Descobriram algo muito mais valioso que ouro, algo que poderia despertar a ganância de Perfain e levá-lo a se arriscar desta maneira.

– Perfain apoia os rebeldes – Wislic coçava novamente sua barba – quer tomar controle da cidade através deles. Faz sentido.

– Não importa – ela abriu a porta para a criatura – rebeldes, guardas, que se matem todos eles. Tudo que importa é descobrirmos como o servo retornará para a fortaleza de Perfain.

Com passos ritmados a criatura se esgueirou pela porta e saiu caminhando pela rua. Os ossos batendo contra a pedra do chão criavam um som peculiar. Os companheiros pegaram suas armas e equipamento e se preparam para sair.

– Atentem para os rebeldes – Wislic falava como um pai alertando seu filho pequeno – os rebeldes devem estar procurando pela criatura e não vão gostar se descobrirem que estamos a seguindo.

Nahovi e Cnotak se olharam e sorriram. Os três eram velhos companheiros de aventura e sempre antes de iniciarem uma jornada, Wislic proferia seus conselhos e avisos. No início se irritavam com as palavras do anão, mas com o passar dos anos aquilo se tornou um ritual, um indício de que as coisas terminariam bem.

A rua estava vazia, o som oco do osso contra a pedra era tudo que se podia ouvir. Gram dormia em silêncio depois da batalha na praça e os três amigos partiam para mais uma aventura.

 

***

 

O fogo rugia, o calor corava os rostos e as fagulhas dançavam no ar da noite quente. Ela estava com seu pai na pequena construção onde o metal era aquecido e depois trabalhado para ser transformado em armas e outros objetos. Passava longas tardes e algumas noites observando o martelo se chocar contra o metal quente e as fagulhas voarem como vaga-lumes assustados.

Foi com seu pai que Nahovi aprendeu a lutar, aprendeu a entender a dança das lâminas e compreender seus detalhes, seus perigos. Aquela noite era para ser memorável. Foi, mas não da maneira que Nahovi e seu pai desejavam.

Ela estava sentada ao lado dele, o calor do fogo lambia sua pele e o som da bigorna invadia seus ouvidos. Seu pai trabalhava em sua espada, a primeira lâmina que seria somente dela. Não algo emprestado, quebrado e usado, mas uma arma sua, para suas mãos. Feita por seu pai.

O som dos cavalos se confundia com o baque do martelo e quando os animais apareceram, era tarde. O ataque foi rápido, eficiente e sangrento. Seu pai pouco pode fazer, e ela apenas sobreviveu porque caiu sobre o fogo e foi dada como morta pelos ladrões. A última coisa que viu foi o guerreiro com o carvalho no peito levar a jóia de seu pai.

Ela passou toda sua vida procurando uma forma de pegar a pedra de volta, descobriu que os assassinos de seu pai eram homens de Perfain e desde então esperava por uma chance de vingança. O tesouro de seu pai voltaria para suas mãos. E o grotesco servo que encontraram na praça era a oportunidade que ela vinha esperando.

 

***

 

A criatura andava sempre no mesmo ritmo, os ossos que substituíam seus pés não permitiam que andasse mais rápido, porém era incansável e completara sua missão. A mensagem que entregou para os rebeldes foi recebida com festa pelo grupo. Imediatamente após o líder rebelde, que momentos antes estava preso diante do executor, receber o envelope, a criatura retomou a sua marcha e agora se afastava da cidade.

Para surpresa de Nahovi e seus amigos, rumava para um bosque afastado da cidade, porém na direção oposta a fortaleza de Perfain.

Há muito tempo, aquele foi um bosque cheio de vida, com animais e árvores que davam bons frutos. O povo de Gram se reunia ali para comer, caçar e se divertir, mas as folhas que eram verdes começaram a escurecer, os animas fugiram e logo ninguém queria caminhar por ali. Os antigos falavam que uma maldição caiu sobre o lugar.

Tudo que restou foram árvores mortas, sem folhas e ressecadas. Seus galhos desafiavam o vento e a grama não passava de um amontoado de folhas amareladas. Era um daqueles lugares que com o passar do tempo lentamente desapareceria, as árvores cairiam, os troncos apodreceriam e não restaria nada. Somente uma grama nova que nasceria e cobriria os vestígios de que um dia ali existiu um bosque. Porém ano após ano, as árvores mortas resistiam. Permaneciam desafiadoras contra o vento e o tempo e o lugar parecia um instante congelado na memória.

Quando a criatura de Perfain procurou abrigo ali, o que antes era um mistério, agora se tornava límpido como água de nascente. A magia de Perfain é que mantinha o bosque ali.

Nahovi puxou sua espada e a lâmina reluziu ao sol.

– Vou até lá – ela sorriu nervosa – não precisam ir comigo. É um assunto meu e não tenho escolha, preciso resolvê-lo.

– Sinto muito – Cnotak desembainhou sua espada – foi uma bela tentativa, mas não deixaremos você com toda a diversão.

Ela olhou para o anão e Wislic também empunhava seus machados. Sentiu-se mais segura sabendo que seus amigos a acompanhariam. Um gavião ao longe mergulhou no ar abafado para pegar sua presa. Nahovi viu aquilo como um bom presságio e os amigos seguiram com passos cautelosos, mas confiantes.

A criatura já manquitolava por entre as árvores negras quando eles alcançaram o bosque. Avançavam com cautela, agora estavam no território de Perfain e poderiam esperar todo o tipo de armadilha e perigo.

– Temos que nos apressar – Wislic olhava atentamente para o chão. Como andarilho sabia ler os pequenos sinais gravados no solo, no passado isto salvara sua vida por inúmeras vezes – não podemos deixar que a criatura se afaste. Temos que saber onde fica a entrada.

– Algo não está certo – Cnotak olhava para cada tronco e girava o corpo a cada lufada de vento – está muito fácil. É impossível que seja tão fácil entrar nos domínios de Perfain.

– Este é o grande segredo – Nahovi falava com entusiasmo – ninguém acredita que é possível fazê-lo por ser fácil demais, óbvio demais. A melhor proteção que existe é fazer com que os outros pensem o que você deseja.

– Pode ser – o anão sussurrou – mas Perfain preferiu não arriscar – apontou para alguma marca no solo – guardas patrulham esta área.

Os sorrisos sumiram e os dedos apertaram os cabos das armas. Cnotak posicionou seu escudo negro a frente do peito em posição de defesa, trazia pintado um javali em bronze. Apesar da sua dificuldade para caminhar, a criatura avançava com uma boa velocidade e distanciava-se. Os três amigos, contra sua vontade, tiveram que apressar o passo, isto os tornava uma presa mais fácil para um ataque surpresa. Porém, não tinham escolha, se a criatura escapasse jamais descobririam a entrada.

Penetravam profundamente no bosque quando descobriram que o terreno tinha uma suave depressão e formava um pequeno vale. Antes de descerem, já podiam escutar o barulho da cachoeira que corria por uma parede de pedras até uma lagoa. E apesar de ter elementos que normalmente formariam uma bela paisagem o lugar era feio e emanava uma sensação de algo podre, morto. O servo de Perfain desceu sem dificuldades até a lagoa e sumiu por detrás das águas da cachoeira.

Mais uma vez um local óbvio que ninguém se daria ao trabalho de procurar, pois Perfain não seria tolo de se expor desta maneira. E ainda assim tudo indicava que ali, atrás de uma queda d´água, estava a entrada para a fortaleza.

A ideia de que a perseguição logo terminaria trouxe alegria para o coração dos aventureiros. Nenhum guerreiro gosta de ficar vulnerável e era exatamente como eles se sentiam. Desejavam sair dali o quanto antes. Quando a criatura sumiu na parede de pedras, souberam que sua busca tinha chegado ao fim.

Seguiam ao longo do lago, o cheiro era terrível, e já podiam ver o que deveria ser uma caverna se formando atrás das águas velozes da cachoeira. Agora conseguiam ver uma estreita trilha que seguia pela parede de pedras até a passagem.

O primeiro golpe foi impressionante. O kuraq pulou sobe Cnotak, sua maça destroçando o escudo, rasgando a cota de malha e moendo a carne. Por pouco o guerreiro não voou no lago. Porém, ele firmou as pernas, equilibrou-se e manteve a posição. O segundo inimigo caiu sobre Nahovi, mas a guerreira conseguiu dobrar seu corpo e evitar o golpe, o elfo a encarava, espada curva em punho e escudo em posição de defesa.

Wislic previu a emboscada mais cedo que seus amigos e estava preparado, o primeiro golpe, a espada de outro kuraq, foi aparado e o segundo, o machado de um humano, foi desviado. O anão olhou para seus inimigos e os chamou para o combate com movimentos curtos de seus dois machados.

Não era bravura, mas uma tática para enfurecer o inimigo e provocá-lo ao erro. O anão jamais deixava que a fúria do combate tomasse conta de sua mente e seu estilo de luta era muito frio e calculado.

O kuraq golpeou duas, três vezes. Sua velocidade com a maça era impressionante. Cnotak mal conseguiu aparar os golpes, sua espada vibrando e quase escapando de sua mão. A seqüência de estocadas não dava a menor chance para um contra ataque e tudo que o guerreiro podia fazer era se defender e esperar por uma oportunidade.

Ao contrário de seu amigo anão, Nahovi se entregava completamente a batalha. Lutava por instinto e conforme seu coração mandava. Sua espada dançava pelo ar, mordendo aço e madeira, ansiosa para encontrar o sangue. Mas ela tinha encontrado um adversário a altura. O elfo sempre estava pronto para aparar seus golpes e quando a oportunidade aparecia, aproveitava para atacar. Era uma bela luta.

Ela negará que faz de propósito e talvez isso não importe, mas quando se depara com um adversário habilidoso, invariavelmente Nahovi alonga seus golpes e o decote de sua roupa se apresenta para os olhos do inimigo. Alguns resistem a seus encantos, outros como o elfo, não resistem e se perdem por um instante em suas curvas. É a hesitação que Nahovi precisa. O momento que define uma luta.

Enquanto seus olhos passeavam pela pele morena de Nahovi, o elfo baixou seu escudo. O golpe da espada foi potente e a lâmina cortou o braço do guarda de Perfain com facilidade. Escudo e mão caíram no chão e, quando percebeu o que se passava, o elfo estava morto.

Como se fizesse uma tarefa ordinária, como dobrar uma roupa ou varrer o chão, Nahovi avançava brandindo sua espada. O primeiro golpe acertou um dos inimigos de Wislic no ombro. A lâmina afundou quase até o peito do humano. O segundo rasgou as costas do kuraq que não esperava pelo golpe. Seu sangue fervia, o coração batia no ritmo da luta. Vibrando em uma canção de sangue e morte.

Quando chegou ao kuraq que lutava com Cnotak, viu em seu rosto o desespero de alguém que sabe que perdeu. Que não importa qual seja sua decisão, ela o levará a derrota. Ele aparou o golpe de Nahovi e surpreendentemente conseguiu esquivar da lâmina de Cnotak, mas encontrou seu destino no machado de Wislic. Terminou, os guardas de Perfain estavam mortos e agora a entrada para sua fortaleza encontrava-se desprotegida.

 

***

 

Sempre que seu pai chegava de viagem, ela não conseguia dormir enquanto ele não estivesse em casa. Não porque ele estivesse em uma viagem perigosa ou porque ela soubesse que o pai era um mercenário que alugava suas habilidades para realizar o que outros não conseguiam. Ela permanecia acordada porque o pai sempre lhe trazia um presente. Uma surpresa de uma terra distante, algo que Nahovi nunca tinha visto.

Aquela noite não foi diferente. Apesar da chuva e do cansaço o pai abriu a porta e levava um sorriso no rosto. Abraçou a filha e beijou sua mulher. A menina pulava de ansiedade e não parou até que o homem ajoelhou a sua frente e de sua mochila retirou uma pedra que pulsava uma luz verde intensa. Nahovi ficou parada, não piscava, hipnotizada por aquela luz. Queria a jóia toda para ela, porém o pai disse que não podia, pois ele teria que devolver a pedra. Não era dele. Mas, claro, ele tinha uma surpresa e, no dia seguinte, com cuidado e paciência o pai tirou uma lasca da jóia para sua filha. Quando a lasca caiu na palma da mão da menina a luz da pedra mudou de verde para azul. A beleza e intensidade continuavam a mesma, porém agora o azul pulsava ali.

Com cuidado colocou a pequena pedra dentro de um pingente de prata e pendurou a jóia no pescoço de sua filha. Era a coisa mais bonita que Nahovi viu em toda sua vida, era como se levasse o inverno em seu pescoço. Abraçou com força o pai.

 

***

 

Acordou assustada, segurando o pingente que repousava em seu pescoço e ofegante. Abriu os olhos, mas era como se ainda estivessem fechados. A escuridão era intensa.

Sentindo o pequeno objeto de prata em suas mãos, lembrou-se de quando descobriu que o pai tinha sido contratado por Perfain para trazer a pedra para a fortaleza. Um velho mercenário bêbado, que trabalhou com seu pai, disse que quando o pai dela quebrou a pedra, acabou com sua vida. Perfain jamais perdoaria aquilo.

Mesmo depois de tantos anos ela chorou no escuro, a culpa era dela. Se o pai não quisesse agradá-la não teria cometido aquela loucura.

Um grito ecoou pelos corredores e Nahovi se colocou de pé.

Estavam cansados, famintos e com sede. Sentiam que a esperança escorria por seus dedos e logo tudo que restaria era o desespero. Já tinham perdido a conta de quantos dias vagavam pelos corredores do labirinto. Rumavam para uma direção sem saber se era a certa e logo descobriam que ela levava a outra parede e precisavam seguir por outro caminho.

No começo fizeram uma tocha para se o orientar e caminhar, mas o fogo atraiu criaturas, algo como grandes morcegos de dentes e garras afiadas. Eram velozes e precisos. Depois do terceiro ataque desistiram das tochas. Era melhor andar no escuro do que morrer na luz. Tentaram de orientar com as espadas, mas o barulho do metal contra a rocha atraiu a atenção de novas criaturas, não sabem o que eram, e tudo que puderam descobrir é que tinham dentes afiados. Passaram a usar as pontas dos dedos e logo elas ficaram em carne viva. Estavam realmente cansados e somente a força de vontade de Nahovi, sua vontade de vingança, é que os levara até ali.

– Desculpem, amigos – Wislic sentou – não consigo mais. Está além das minhas forças.

Os outros dois não disseram nada. Não tinham forças para contrariar o amigo e de fato, queriam concordar com ele, deitar na rocha fria e deixar que a morte viesse.

– Droga! – o anão sentiu uma lasca de pedra perfurar sua mão e o sangue escorrer por entre os dedos.

Wislic retirou a lasca e estava prestes a jogá-la na escuridão quando parou o movimento e sorriu. Passou os dedos pelo objeto e levou a lasca até os dentes. Uma leve mordida.

– Mais uma vez você nos mostra o caminho – murmurou o anão para si.

Com uma agilidade improvável depois de tantos dias naquela escuridão, sem água e comida, Wislic se levantou.

– Creio que posso indicar o caminho certo – o anão, apesar se não ver nada, colocou a lasca de osso diante dos olhos.

– Vamos – foi a única coisa que Nahovi disse.

Eram velhos companheiros, passaram por situações em que a vida de cada um deles dependia do outro, aventuras em que somente a confiança os levou vivos até o final. Não precisavam de explicações. Se um deles dizia que saberia como tirá-los daquele lugar maldito, era o que bastava.

O avanço era lento, Wislic seguia de joelhos, procurando no solo pelas pequenas lascas que os pés de osso dos servos de Perfain soltavam quando entravam e saiam da fortaleza. Era um trabalho de paciência e, as vezes, demoravam um longo período até encontrar a próxima lasca. Contudo, estavam alegres e renovados com esperança. O simples fato de terem algo para se apoiar, um plano por mais frágil que fosse, era um tremendo conforto.

Porém, os corredores eram longos, com curvas, desvios e a animação com a descoberta da trilha de ossos logo se desfez. O desespero começava a tomar conta de suas mentes, como um musgo que de pouco em pouco cobre uma pedra. Por mais que Wislic usasse toda sua habilidade para seguir rastros, a escuridão era densa e as lascas de osso diminutas.

O anão estava a ponto de desistir quando seus ouvidos sempre atentos escutaram uma leve batida. Um som familiar. Imediatamente o andarilho lembrou-se da criatura, seu andar único e o leve som que o osso fazia quando batia no chão. Na escuridão do labirinto de Perfain, Wislic ouvia o mesmo som.

– Está vindo de trás – Wislic segurou seus amigos pelas vestimentas e fez com que encostassem na parede – dêem espaço para ele passar.

– Quem? – Cnotak não soava confuso, mas curioso.

– Nosso novo guia – o anão responde.

Apesar de não poderem ver, de alguma maneira os aventureiros sentem que algo passa por eles no corredor. O barulho inconfundível do osso batendo na pedra revela que é um dos servos de Perfain. Quanto a isso não há dúvida.

– Basta segui-lo e chegaremos ao fim deste maldito labirinto – Wislic iniciou a caminhada atrás do guia.

– Por isso os guardas – Nahovi conclui – Para Perfain não importava se os guardas conseguiriam deter os invasores. Tudo que precisavam fazer era atrasar os inimigos o suficiente para que não pudessem seguir o servo. Mesmo que isso custasse suas vidas.

– Precisamente – o anão concluiu – o grande guardião da entrada é o labirinto. Um oponente poderoso e que jamais irá traí-lo.

– Perfain não contava com a astúcia de um andarilho – Cnotak bateu nas costas de Wislic e pela primeira vez em muito tempo os amigos sorriram.

 

***

 

O pão estava velho e o queijo rançoso, contudo para eles era um banquete digno dos grandes reis. O vinho também era de péssima qualidade, mas bebiam com prazer. Estavam famintos e o modesto lanche dos guardas foi uma grata surpresa.

Os quatro corpos no chão demonstravam que Perfain era cauteloso. Mesmo com o bosque e o labirinto, tinha colocado guardas para defender a entrada. O senhor da fortaleza era conhecido por ter um cuidado com os detalhes e nunca deixar nada sem atenção. Também diziam que Pefain jamais esquecia, principalmente aqueles que o prejudicavam, mas este era um pensamento que os amigos preferiam evitar.

O que Perfain não contava, ou talvez contasse e não se importasse, era que as pessoas não são confiáveis. Um labirinto sempre será o mesmo, imutável, com muros sólidos e se bem construído, fatal. Quando os aventureiros chegaram aos guardas, encontraram adversários distraídos, sem ritmo de batalha e preguiçosos. Mesmo cansados e famintos venceram com facilidade.

– Chegamos até aqui – Cnotak bebeu o último gole do vinho – mas desconfio que é o máximo que conseguiremos.

– E o que faz o companheiro perde a fé em nós? – com a barriga cheia o bom humor retornava ao grupo.

– O fato, meu caro Wislic, de não termos a menor idéia de onde a jóia que Nahovi procura possa estar e que não poderemos bater em todas as portas de Perfain para descobrir.

Com calma Nahovi retirou uma pequena corrente de prata que envolvia seu delicado pescoço. Com delicadeza segurou a pequena caixa de metal entre os dedos e abriu o fecho. No interior estava uma diminuta lasca de pedra, tinha um brilho fraco, quase inexistente, um pulsar azulado. Nahovi admirava o objeto com genuíno fascínio.

– Há muito tempo eu não via ela brilhar – a guerreira aproximou a pedra dos olhos que reluziam, repletos de lágrimas – meu pai me deu isto. Tirou um pequeno pedaço de sua jóia e o entregou para mim. Depois que ele foi morto e a jóia levada pelos assassinos de Perfain, parou de brilhar. Mas quando ainda estávamos no labirinto percebi que ela voltou a brilhar e a cada passo, ele ficava mais intenso.

Apesar de ser fraca, quase imperceptível, ainda assim o pulsar azulado prendia a atenção dos aventureiros e ficaram um bom tempo olhando fixamente, quase hipnotizados, pela diminuta pedra.

– Acha que seria possível dizer que a proximidade com a pedra fez o seu pedaço brilhar? – Wislic tentava desviar sua atenção das mãos de Nahovi.

Com um grande esforço ela fechou a mão e o pulsar sumiu. Seus amigos sacudiram as cabeças como se saíssem de um transe. Nahovi guardou a pedra em seu pingente e depois colocou o colar novamente em seu pescoço.

– Sim – uma única lágrima escorria pelo rosto de Nahovi – vamos encontrar o meu pai.

 

***

 

A pequena caixa de metal já não continha mais a luz azulada que escorria pelas ínfimas frestas e pulsava com força. Em algum outro ponto da sala, a luz se repetia, mas com muito mais intensidade. Não existia dúvida de que ali estava a pedra do pai de Nahovi.

E não foi preciso verificar a luminosidade da pedra, a cada passo que davam a caixinha de metal no pescoço de Nahovi ficava mais azulada, mas parecia que a guerreira tinha um elo muito forte com a jóia que pertenceu a seu pai. Seguindo seus instintos ela conseguia indicar a direção com segurança.

O problema é que um vulto se colocava entre eles e seu objetivo. Uma criatura franzina, de braços longos e os pés invertidos surgiu do fundo do comprido cômodo. Os calcanhares para frente e os dedos para trás. A pele alva era coberta por feridas de um vermelho vivo, olhos sem pálpebras e a boca formada por dentes finos e afiados que se movia em um abrir e fechar incessante.

Nahovi seguia a frente, espada em punho e passos decididos. A lâmina rodopiava, girada habilmente pelas mãos da guerreira. A criatura emitiu um som que lembrava uma cigarra, em desafio. Retesou as pernas e atacou, saltou por entre Nahovi e Cnotak. A lâmina da guerreira conseguiu aparar o golpe e suas mãos vibraram com a potência do ataque. O antebraço da criatura sangrou e Nahovi percebeu que a pele branca era cheia de cicatrizes de feridas antigas. Velhas batalhas.

Cnotak não tinha mais seu escudo e seu braço foi dilacerado. O servo de Perfain tinha nas pontas dos dedos garras que pareciam ser de metal e moviam-se a uma velocidade incrível. Cnotak não teve tempo de se recuperar do golpe, seu pescoço foi rasgado e o sangue molhou toda sua roupa. O guerreiro caiu de joelhos, olhos paralisados, tentou colocar a mão sobre o ferimento. O corpo caiu sem vida sobre a pedra fria do chão.

A criatura continuava emitindo sons que lembravam insetos. Os olhos negros fixados em Nahovi.

Wislic ficou ao lado de sua amiga, os machados firmes em suas mãos. Viu que a morte de Cnotak tocara Nahovi da mesma forma devastadora, que a tristeza transbordava de seus olhos e não foi preciso palavras, apenas sabiam que seria uma luta de vingança. Que ambos desejavam com todas as suas forças que aquela criatura morresse, que suas armas a perfurassem e dilacerassem, que arrancassem a vida de seu corpo.

É uma luta feroz. Nahovi e Wislic tentam de toda a forma acertar a criatura, mas ela é rápida demais. E quando são precisos, os cortes parecem não incomodar o inimigo. O anão tem um corte profundo na perna e a guerreira um corte no supercílio resultado de um chute certeiro. Usando seus pés invertidos para fazer o movimento a criatura surpreendeu a guerreira. Ambos estão exauridos, o combate é longo e demanda uma entrega muito grande de seus participantes, contudo o guerreiro de Perfain permanece com a mesma rapidez e força do início.

Ele desfere um golpe que atinge Nahovi no ombro, a carne é retalhada pelas unhas de metal e a guerreira cai no chão. Indefesa, com sua espada longe de sua mão, a dor em seu ombro chega a turvar sua visão e o inimigo se prepara para o ataque fatal.

Um encontrão empurra a criatura para longe e o anão se coloca entre sua amiga e o inimigo.

– Venha – disse Wislic – vamos terminar isso.

Tentou acertar a criatura que desviou do machado com facilidade. O contragolpe acertou o punho, com tamanha força que a mão esquerda de Wislic ficou pendura, se agarrando ao braço apenas por um pedaço de pele e tendão. O chute atinge o rosto do anão, o calcanhar quebra dentes e a mandíbula de Wislic. Atordoado ele nada pode fazer quando seu pescoço é dilacerado pelas unhas de metal. O andarilho tomba e Nahovi está sozinha.

Enquanto a criatura atacava seu amigo, ela se levantou e buscou por sua espada. Estava preparada quando o inimigo voltou suas atenções para ela. Nahovi encarou o vazio negro dos olhos do guardião e pela primeira vez sentiu uma sensação que não conseguia compreender. Algo que não sabia como controlar e que aos poucos foi tomando conta de cada pedaço de sua alma. Nahovi percebeu que não tinha como vencer.

Resistia o quanto podia aos ataques, mas era uma questão de tempo. Sua mente fora derrotada, o desespero e a falta de esperança tinham vencido. A sensação da derrota estava cravada em seu coração.

O golpe fatal veio e Nahovi se juntou a seus companheiros. O sangue e a vida escorrendo por um ferimento na garganta.

A criatura ainda emitia sons, agora era como se um enxame de abelhas estivesse voando pela sala. Estava sobre o corpo de Nahovi e preparava para se alimentar quando um assobio ecoou. Era agudo e límpido.

A criatura parou e se afastou de Nahovi, tudo estava em silêncio. Perfain andava com passos despreocupados, um sorriso se equilibrava em seus lábios. Na mão trazia uma pedra, uma luz pulsante azulada que iluminava toda a sala. Ajoelhou-se ao lado do corpo de Nahovi.

– Você lembra seu pai – Perfain olhava o rosto da guerreira –, porém ele era mais esperto. Teria visto a armadilha do início. Desde o momento em que meu servo apareceu na praça ele se afastaria. Mas não você, minha bela guerreira, você precisava vingar o seu pai, aquele maldito ladrão. Precisava me enfrentar e a sua culpa a deixou cega.

Buscou pelo colar e arrebentou a corrente com um forte puxão. Abriu a pequena caixa de metal e retirou a lasca de pedra que estava guardada ali dentro. Segurando o delicado objeto entre os dedos, olhou por um longo tempo para sua luz azulada.

– Depois de tantos anos, enfim terei o seu poder restaurado. Procurei por toda Breasal por você e o tempo todo estava aqui, na minha cidade. Mas agora você vai voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Com cuidado levou a lasca até o único local da pedra em suas mãos que não era inteiramente liso. O encaixe foi perfeito.

Perfain levantou-se e a pedra em sua mão agora emitia uma luz esverdeada. Sorriu, de fato, gargalhou alto enquanto saía pela porta. E a criatura finalmente pode se alimentar.