Os ventos de não-mudar

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arroioEste deve ser o lugar, cuidou Henry. Estacionou o seu carro na beira da estrada, saiu e rubiu amodo pelo outeiro que lhe fora descrito tantas vezes. Por fim poderia comprovar por si mesmo se havia alguma verdade nas histórias que a gente contava sobre este lugar “fantasmagórico”, onde tudo estava, supostamente, em moção constante, onde mudar era a única constante. Mais da gente que pensa racionalmente desentendia-se das histórias sobre o lugar como folclore supersticioso, produtos da imaginação com sentido apenas para os simples, para pessoas dadas facilmente ao voo da fantasia num esforço por escaparem da cinza monotonia e do tédio sem fim da vida diária. Sem embargo, ele seria o primeiro em demonstrar que a gente a pensar racionalmente deve aplicar o método empírico para verificar a validez de qualquer história fantástica. Desde um ponto de vista científico as crenças baseadas em noções preconcebidas e preconceitos eram tão inaceitáveis como as crenças baseadas na superstição.

Chegara agora ao bico do outeiro e deixou que os seus olhos percorreram a redonda que se estricava aos seus pés. Uma branha, pintegada de queirogas e salgueiros, descendia, suave, à baixa. A cem metros da sua posição avantajada um regacho estreito cortava um mando de juncos, e mais lá as queirogas e salgueiros espessavam numa fraga que cobria os rilheiros acima cara ás peniqueiras no limite da sua visão.

Henry apercebeu-se de que se não viam animais, exactamente como se dizia. Os animais sentiam instintivamente que algo estava errado neste lugar, segundo o conto, e evitavam-no a toda custa. De facto, não viu pássaros a baterem as asas no céu, nem esquios a brincarem a fume de caroço, nem insectos a barulharem ou bulirem ao redor. O lugar estava premonitoriamente calmo.

Por quê não o olhamos mais de perto –cuidou o Henry- e começou a caminhar rilheiro abaixo. Um vento lixeiro despenteou o seu fino cabelo roxo. Até aqui, tudo parecia formosamente calmo e normal. Então, onde estavam as parvas mutações que supostamente aconteciam nesta redonda? A branha, a água reluzente com o sol de manhãzinha do verão, a fraga ao longe, o céu azul e uns feixes de nuvens não pareciam serem sujeitos de mutação nenhuma. Para além da ausência de animais, até onde se podia detectar simplesmente olhando em volta, não havia nada especial neste lugar.

Harvey acenicou a cabeça. Deveria sabê-lo. Realmente aguardava sofrer alguma transformação mágica aqui? A normalidade ao seu redor, simplesmente, confirmava o que  decote pensara sobre o assunto. Mas ainda, agora que já se molestara em vir até aqui, poderia também caminhar um pouco ao redor e desfrutar a beleza e tranquilidade do lugar.

Lançou para trás o seu envolto cabelo de rastafari, atado num rabo-de-cavalo sobre as costas e desceu mais abaixo no rilheiro. Este seria um lugar ideal para um picnic, cuidou. Aqui em baixo não havia praticamente vento e estava bastante morno. Quitou a sua jaqueta de pana e colheu caminho cara ao rio. O débil fervenzar da água era o único som a romper o silêncio.

Harry olhou ao redor a redonda em todas as direções, mas nada mudara desde que ele chegara: a branha, o rio, a fraga nas abas das peniqueiras na distância, o céu azul, a ausência de animais. Fechou os olhos por um momento, desfrutando da energizante sensação do sol a bater na sua cabeça limpamente rasurada. Este lugar pode ser que não guarde mágia nenhuma, cuidou, mas é maravilhoso abondo o mesminho. Quitou as suas botas e meias e tripou na água fria. Era tão refrescante que quitou as calças e roupa íntima e a sua camisa quadriculada também, e lá se mergulhou durante uns minutos na água que lhe chegava até o peito.

Bem, cuidou Hector mentres rubia de volta sobre a erva, é tempo de voltar. Aguardou até que enxugara o seu corpo e usou a sua camiseta para secar as suas guedelhas longas até o peito, negras como o carvão. Então pôs o seu kilt, deslizou os seus pés de novo nas suas sandálias e botou o seu abrigo de pele de urso ao ombro.

Caminhou amodinho cara arriba até o outeiro do que vinhera. Quando chegou ao bico, Horácio virou-se e lançou-lhe uma última olhada à redonda detrás de si. A branha, o rio, a fraga e as piniqueiras estavam ainda como decote estiveram desde que chegara aqui, e provavelmente não mudaram em anos. Começou a rir e abanou a cabeça. Gente supersticiosa e simples! Pelo menos agora podia rejeitar as suas fantásticas asseverações com o argumento de que ele sabia-o melhor, porque ele estivera lá, olhara com os seus próprios olhos como realmente era.

Horvath desceu rapidamente o outeiro até onde estacionara o seu carro. Entrou e arrebolou o seu abrigo e a camiseta molhada no assento de atrás. É estranho, cuidou. Não estava a sentar-se comodamente, como se alguém muito mais pequeno do que ele reajustara o seu assento mentres ele estivera fora. Empurrou o assento de novo cara a sua posição regular e ligou o motor. Para a sua surpresa, os pedais de algum modo não pareciam estar onde os seus pés acostumavam atopa-los. Se cadra medraram os seus pés por se ter metido nu na água fria?

Estas incomodidades menores aginha foram esquecidas, porém. E agora Horvath estava voltando à casa, ledo de olhar confirmadas as suas ideias baseadas no pensamento racional.