Os Maldonados

0
330

I

maldonadoUma das mais singulares antinomias da Idade Média é o culto decidido e constante que os cavaleiros rendiam simultaneamente à religião de Cristo e à religião da Honra, que chegara a ser pouco menos do que um deus para os nossos maiores.

Perdoar as injúrias é um preceito cristão. Não tolerar (nem) a mais pequena, foi um preceito da cavalaria. Quando alguém se armava cavaleiro, o golpe que lhe dava o padrinho com a espada sobre os ombros significava que aquela era a última afronta que devia sofrer o dignatário. Isto sucedia no momento de jurar o jovem paladino morrer pela religião de Jesus.

Notório é quanto receosa se mostrou sempre a nobreza galega das suas honras e privilégios. A satisfação que tomou de uma injúria um cavaleiro dos Aldanas, constitue o objecto desta breve memória.

O feito celebrou-se então grandemente, como que foi origem dum ilustre apelido e de um brasão dos mais prezados.

Chegou a nós baixo a fé de Ozcariz Febrer, Pi Ferrer e outros escritores, quem lhe assignam a data de 839, reinando Afonso III. Ao referi-lo nós qual eles o referem, não podemos menos de protestar do anacronismo, pois Afonso III ainda não nascera em 839. Não faltará alguma outra circunstância pelo estilo, em descrédito da nossa história; mas esta, verdadeira em pouco ou em muito, serve para dar uma ideia do que eram os homens daquela idade.

Não sempre hão de ser feitos o objectivo da Musa do passado. Muitas vezes, mais do que cem feitos vale um símbolo.

II

Fernão Peres de Aldana, -a seguir a sentença dos geneaologistas, que deliraram mais do que Ovídio nas Metamorfoses- descendia de Teodorico, rei dos ostrogodos, por linha de um Suero?, que passou à Galiza e fundou casa solarenga e infanzona em Aldana, comarcas de Santiago.

As armas da família eram dois lobos de gules em campo de ouro, com o timbre Ave Maria.

Depois de quarenta e seis anos de fadigas servindo a Afonso III, cujo almirante (?) foi, Fernão Peres de Aldana sentiu-se enfermo, e em vista da inutilidade dos meios humanos para combater o mal, apelou ao socorro divino, invocando à que é salus infernorum.

Tal fé tinha o poderoso valemento da sua excelsa padroeira, que, a pesar do estado no que se achava, não vacilou em pôr-se em caminho para visitar o santuário de Nossa Senhora de Montserrat, segundo voto que oferecera.

A moléstia da peregrinação fez que piorasse, e fui preciso levá-lo numa maca à celebrada igreja, objecto das suas ânsias.

Nesta disposição iniciou a novena.

III

A afluência de gentes era imensa no santuário de Montserrat o dia 8 de setembro, festa do seu titular. Entre os forasteiros que acudiram aquele ano á famosa romaria, distinguia-se um, que pelo seu traje e servidume devia ser um grande personagem.

Durante os ofícios, coube-lhe estar junto ao leito do paciente Aldana, quem -dito seja de passo- não se trocava por cavaleiro nenhum daquela terra, julgando-se tão bom e nobre pelo menos como o que mais.

O estrangeiro, desejoso de ver melhor as cerimónias e prescindindo ele mesmo de todas, encaramou-se muito galanamente sobre a cama do infanção galego, que veio ficar como o demo baixo Santo Miguel.

Tamanho desaforo e tão indencente descortesia feriram Aldana no mais vivo: mas por respeito ao templo, houve de limitar-se a dizer ao ousado:

– Rogo-vos em cortesia, cavaleiro, busqueis outro sítio no que melhor podais estar, que vossos pés me incomodam.

– Não te incomodarão, se quem sou souberas – contestou o sobérbio.

– Mais cortesia me fizeras também tu, se quem sou souberas – replicou Aldana.

Longe de vir à razão, irrompeu o mal criado nestas frases:

– Nao me dês ocasião de pôr os pés de modo que os sintas.

Indignado então Aldana, exclamou:

– Cavaleiro: se esta divina senhora, a cuja devoção eu vim, me devolve a saúde, prometo-vos que vá tomar emenda e satisfação da injúria no seu santo templo recebida.

Acabou com isto o incidente.

Averiguando depois quem era o emperigotado personagem, resultou ser o duque de Normandia, sobrinho do rei de França.

IV

Aldana curou-se, e não tendo ainda recuperado as suas forças, presentou-se a Afonso III dando-lhe conta do sucedido.

Grande pena cobrou o rei, assim pela qualidade do ofendido como pela do ofensor, e desejando arranjar o asunto o melhor possível, enviou um embaixador com Aldana à corte do soberano francês.

Ante isto expôs a sua querela o nosso cavaleiro, causando profunda pesadume no ânimo do monarca, que estimava muito aquele, ainda que naturalmente estimaria mais ao seu sobrinho.

O duque de Normandia compareceu no estrado e houve de confessar a sua falta, da que pediu perdão ao afrentado galego.

Não se contentava Aldana com tão pouca cousa, e exigiu que o duque se postrasse em terra, para pôr sobre ele um pé, em desagravo da injúria de Montserrat, e segundo lei do Talion.

O ofensor resistiu-se a humilhar-se de tal sorte, e não tendo avença, decidiu o rei de França que as duas partes elucidassem a questão pelas armas em singular combate.

Assim se efectuou. O dia da lide apareceram ambos os dois cavaleiros de punta em branco, e romperam em mil pedaços as suas lanças à primeira envestida.

Seguiu a peleja, usando da pesada maça, até que Aldana derrubou de um golpe o Duque de Normandia, que rodou ferido pela areia.

Com a celeridade que presta a sede de vingança, saltou Aldana do cavalo e dirigiu-se ao seu adversário com a firme intenção de cortar-lhe a cabeça. Pero o rei interpôs a sua espada, e advertiu-lhe ao espanhol que satisfeito ficaria a sua honra, se o duque morria da ferida, como era provável.

O nosso herói abandonou o campo.

V

Quando o soberano francês dava por acabada a história, achou-se com Aldana, que voltava á sua presença demandando vingança.

Assombrado por aquele homem implacável e ansiando acabar de vez, ofereceu-lhe honras e riquezas a troco de uma honrosa transação.

Aldana observou que, sobrando-lhe tudo na sua casa não se molestara em ir por isso a casa alheia; e acrescentou que se retiraria a Espanha, não só queixoso do duque, mas também do rei.

Em tal ponto, este prometeu outorgar-lhe tudo o que lhe pedisse. Aldana pediu para o seu escudo um brasão de cinco flores de lis, já que os reis de França usavam só tres.

Comprometido o monarca pela sua palavra, contestou com estas que conservou a história:

– Je te las donne, bien qu’elles soyent maldonées. (Eu dou-tas, por mais que sejam mal dadas).

Explicam os tratadistas de heráldica o maldonées, não como referido a um dom que não se merecera, senão como dom arrancado por força maior, a despeito próprio.

Aldana então deu-se por cumpridamente vingado, e de tal vez benzeu a injúria que lhe oferecia uma reparação daquele género.

VI

Para memória do sucesso, Fernão Peres de Aldana e os seus descendentes tomaram o apelido Maldonado, e engadiram-lhe aos seus brasões cinco lis de ouro sobre azur.

A sua casa engrandeceu-se por entronques com as primeiras famílias, e a história registrou muitas vezes as façanhas de Aldanas e Maldonados nas nossas lutas com os sarracenos.

Um cavaleiro desta descendência, João de Aldana, obteve do rei Jaime de Aragão por prémio das suas proezas três coroas e uma espada de ouro sobre gules.

Assim se deduz das nossas crónicas a origem dos Maldonados e o das lises nos escudos espanhóis.


Teodósio Vesteiro e Torres
Madrid, agosto 1873.
Tradución por Alfonso Javier Canosa Rodríguez