Cabal, Senhor de Dyfed

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Os Mabinogi é o título de catro relatos galeses, diferentes pero vencellados entre si, e conservados en dous manuscritos do século XIV. O seu título completo é Pedair Cainc y Mabinogi (“As catro pólas dos Mabinogi”). As catro pólas son Pwyll Pendefig Dyfed (“Pwyll, príncipe de Dyfed”), Branwen, ferch Llyr (“Branwen, a filla de Llyr”), Manawydan, fab Llyr (“Manawydan, o fillo de Llyr”) e Math, fab Mathonwy (“Math, o fillo de Mathonwy”), das cales presentámo-vos agora a primeira.

Os relatos foron creados probabelmente a finais do século XI e conteñen elementos que estiveran durante moito tempo no repertório dos bardos galeses. Case con certeza foron o traballo dunha soa persoa e representan a meirande contribución galesa á prosa europea. Ofrecen unha grande cantidade de información sobre os costumes nas cortes reais no Gales medieval, pero a súa grande cualidade está na descrición dos persoaxes, as suas hábiles pasaxes de conversas e a marabilla e a máxia que as impregnan. Adóita-se utilizar a verba “Mabinogion” para se referir aos catro contos: de feito ése é o título utilizado de xeito incorrecto por Lady Charlotte Guest (1838-49) na tradución que fixo ao inglés destas obras, que non só incluían as catro pólas, senón outros oito contos medievais.

Esta é a primeira parte do ciclo e ten autonomía narrativa en canto apresenta un final que se pode considerar pechado. Só o heroe continuará sen que interveñan os outros personaxes no que sería a continuación do ciclo. É pois, como unha apresentación do heroe que protagonizará sucesivos capítulos. Corresponde-se o fragmento coa primeira tradución parcial dos Mabinogi, realizada polo Dr. Owen Pughe e publicada no Cambrian Register en 1795. Para a tradución utilizaron-se só textos galeses, unha versión en galés moderno e os manuscritos do Libro Branco e mais o Libro Vermelho.

mabi1Era Cabal, Príncipe de Dyfed, o senhor das sete comarcas de Dyfed. E um dia estava em Arberth, um dos seus primeiros paços, e veio-lhe ao pensamento e à mente ir caçar. Eis a parte do seu reino a qual ele quis para a sua caçaria: Clyn Cuch. E ele saiu essa noite de Arberth e foi a Ben Llwyn Diarwya, e lá esteve essa noite. E amanhã, na juventude do dia, ergueu-se e veio a Lyn Cuch para soltar os seus cães no couto. Tocou o seu corno e começou a organizar a caça e foi atrás dos cães perdendo a visão sobre os seus acompanhantes.

E segundo estava escutando os laios dos galgos, escutava o laio de outros galgos, mas não eram do mesmo uivar, e estes outros vinham bater-se com os seus galgos. E via ele uma clareira de campo chão no couto e, segundo os seus galgos estavam chegando a uma beira da clareira, via um cervo diante dos outros galgos. E pela metade da clareira eis os galgos que estavam sobre a sua pegada chegando até ele e matando-o.

Ali ele olhou para a cor dos galgos sem perder de olhar para o cervo. E de todos os galgos que vira no mundo não vira cães de uma cor como aquela. Eis a cor que eles tinham: claro brilhante e as orelhas ruivas. E como o brilho branco dos cães, o brilho ruivo das suas orelhas. E nisto, veio ele até os cães e afugentou os galgos e de caminho matou o cervo e manteve os seus cães com o cervo.

E segundo estava a manter os seus cães viu um cavaleiro vir atrás dos galgos num cavalo pinto grande e um corno de tocar ao pescoço e vestido de tela amarelada clara como vestido de caça. E nisto, veio o cavaleiro junto a ele e disse-lhe assim:

– Senhor – disse ele – sei quem és, mas não te dou a bem-vinda.

– Sim – disse ele – mas pode ser que seja para ti tal honra que não é isso uma obrigação para ti.

– Deus o sabe – disse ele- que não merece a minha honra ser privado disso.

– Senhor – disse ele mesmo – que mais?

– Deus diante! – disse ele na sua vez – a tua desmaneira e a tua descortesia!

– Que descortesia, senhor, viste tu em mim?

– Não vi mais descortesia num homem –disse ele- do que afugentar os galgos que mataram o cervo e manter os teus galgos com ele; descortesia foi isso –disse ele- e se não me vingo de ti, Deus diante! –disse ele- eu levarei uma vergonha sobre ti por quanto tanto valem cem cervos.

– Senhor –disse ele da sua vez – se eu fizesse torto que eu compre a tua reconciliação.

– Como – disse ele da sua vez –comprá-la-ás?

– Segundo como seja o teu rango, mas não sei quem és tu.

– Rei coroado sou eu no país do que eu sou vindo.

– Nobre senhor – disse ele então – bom dia para ti, e de que país és tu vindo?

– Do Annwfn – disse ele da sua vez – Arawn, rei de Annwfn sou eu.

– Nobre Senhor –disse ele então – como hei de ter eu a tua reconciliação?

– Eis aqui como a hás de ter – disse ele então- El há um homem que tem o seu reino junto ao meu, a guerrear comigo freqüentemente. Hafgan rei de Annwfn é esse outro. Liberando-me desta opressão, e poderás isto com facilidade, terás a minha reconciliação.

– Farei eu de vez isso de bom grado – disse ele então- diz-me tu então a mim como eu farei isso.

– Direi – disse ele também – Eis aqui como tu podes. Farei amizade firme contigo. Eis aqui como é que o farei; eu por-te-ei no meu lugar em Annwfn e dar-te-ei a mulher mais formosa que viste nunca para dormir contigo cada noite, e o meu parecido e a minha guisa, de modo que não haja nem moço de sala, nem servo, nem homem outro de aqueles que me servem que saiba nunca que tu não és eu mesmo. E isto –disse ele- de aqui ao fim de um ano desde o dia de amanhã. Encontrar-nos-emos nesse tempo neste lugar.

– Sim – disse ele então – desde que eu esteja ali até o fim de um ano, que instrução terei eu de encontrar o homem sobre o que me falaste tu?

– De um ano a esta noite – disse ele então – há uma cita entre eu e ele no passo do rio. E tu estarás lá com a minha feição – disse ele – e bate-lhe com um golpe; não há de viver depois disso. Por mais que te rogue dar-lhe um segundo golpe, não lho dês, por mais que ele to rogue. Por quanto tanto como eu lhe dei, ainda assim, guerreava comigo amanhã igual do que antes.

– Sim – disse Cabal – mas que farei com o meu reino?

– Eu farei – disse Arawn- que não haja no teu reino nem homem nem mulher que conheça que eu não sou tu. E irei eu no teu lugar.

– De grado – disse Cabal – e irei diante.

– A tua viagem será sem dilação – e não haverá nada a te privar de ires adiante até chegares ao meu reino: e eu te guiarei.

Ele guiou-o até que viu o paço e as cabanas.

– Eis – disse ele – o paço e o reino baixo a tua autoridade. Vá ao paço. Não há nele niguém que não te conheça; e pelos vassalos que vejas nele virás a conhecer o costume do paço.

Foi ele então ao paço. E no paço viu as estâncias de dormir e salas e quartos e o esplendor mais formoso de todos edifícios do que ninguém viu. E foi ele ao salão a tirar os sapatos. Vinheram moços e vassalos novos tirar-lhe os sapatos e todo o mundo fazia-lhe saúdos de bem-vinda conforme vinham junto a ele. Vieram dois cavaleiros para tirar-lhe o seu vestido de caça e porem-lhe um vestido dourado de seda.

E o salão foi arrumado. Cá viu ele entrar uma guarda e um alardo e uma hoste mais garrida e mais trajeada do que viu ninguém, e a rainha com eles, a mulher mais formosa que viu ninguém, com um vestido dourado claro. E nisso foram lavar-se e foram em direcção às mesas, e sentaram assim: a rainha dum lado seu e o heraldo, tal semelhava, no outro. E começou ele a conversar com a rainha. E das que ele vira nunca, em comparação pela conversa com a sua, ela era a mulher mais mesurada e mais nobre na sua natureza e a sua conversa. E passaram o tempo com comida e bebida e música e festa. E dos que vira de todos os paços da terra eis o paço mais cheio de comida e bebida, louça de ouro, e jóias régias.

Veio o tempo de eles irem dormir e dormir foram, ele e a rainha. Antes de irem dentro da cama, virou ele a sua face em direcção à beira do leito e o seu lombo em direcção a ela. De aqui até amanhã não lhe disse ele uma palavra. Pela manhã, houve confidência e conversa prazenteira entre eles. Mas por muito comportamento carinhoso que houvesse entre eles pelo dia, não houve uma noite até o remate do ano distinta a esta que foi a noite primeira.

Passou o ano entre caça e música e festa e comportamentos carinhosos e a conversar com companheiros até a noite em que era o encontro. Quando chegou essa noite, tanto vinha o encontro ao acordo do homem mais longe em todo o reino como a ele mesmo. Veio ele por sua vez à reunião e os homens bons do seu reino com ele. E tão rápido como ele veio ao passo do rio, ergueu-se um cavaleiro e tal isto disse:

– Bons homens – disse ele – escutai bem. Entre os dois reis é este encontro, e isso entre ambos corpos dos dois. E cada um deles é contendente com o outro, e isso motivo a terra e território. Podeis todos vós estardes quietos e deixar entre eles os dois.

mabi2E nisso acercaram-se os dois reis, juntos, em direcção ao centro do passo do rio, para se encontrarem um ao outro. E no ataque primeiro, o homem que estava no lugar de Arawn bateu em Hafgan no meio do cerne do seu escudo até que quebrou em duas metades, e até que partiu todas as armas, e até que esteve Hafgan, tendidos o seu braço e a sua lança, na garupa do seu cavalo, boca abaixo, e batido ele mortalmente.

– Senhor – disse Hafgan – que demanda tinhas tu pela minha morte? Não estava a demandar rem de ti. Não sabia por que tampouco me matavas, mas, por Deus – disse ele – pois que começaste a me matar, acaba o feito.

– Senhor – disse ele da sua vez – possivelmente hei de ter pesar ao fazer isto que te fiz. Prega tanto que te mate, mas não te matarei.

– Meus bons-homens leais –disse Hafgan – Levai-me daqui; termine-se a minha morte. Não tenho modo de vos seguir mantendo além.

– Meus homens – disse o homem que estava no lugar de Arawn- pedi conselho e vinde saber quem é que deve ser homens meus.

– Senhor –disseram os nobres – devíamos todos pois não há rei em todo Annwfn excepto tu.

– Sim – disse ele da sua vez – É bem acolher quantos se tornem obedientes. Quantos se não tornarem obedientes, sejam submetidos pela força das espadas.

E nisso, tomaram homenagem os homens e começou a conquistar o país. E pasada a noite, ao redor do meio-dia, estavam os dois reinos baixo a sua autoridade.

E nisto foi ele ao seu encontro e veio a Lyn Cuch. E quando veio, lá estava Arawn rei de Annwfn ao seu encontro. Saudaram-se um ao outro.

– Sim – disse Arawn – Deus te pague a tua amizade, ouvi sobre disso.

– Sim – disse da sua vez – quando voltes tu mesmo ao teu país hás de ver isto que eu fiz por ti.

– Por isto que fizeste por mim –disse da sua vez – Deus to pague.

Lá deu-lhe Arawn a sua forma e guisa próprios a Cabal Senhor de Dyfed, e tomou pela sua parte a sua forma e guisa próprios.

E seguiu adiante Arawn em direcção ao seu paço em Annwfn e alegrou-se de ver a sua hoste e a sua guarda pois não os vira desde havia um ano. Eles pela sua parte, ao contrário, não souberam da sua falta e a sua chegada não lhes foi mais novidosa do que antes. Foi um dia esse que passou em enredos e divertimentos e repousar e conversar com a sua mulher e os seus bons-homens. E quando veio mais tempo de irem dormir do que festejarem, foram dormir. Foi em direcção à sua cama e a sua mulher em direcção a ele. A coisa primeira que ele fez foi falar com a sua mulher e dedicou-se ao prazer amoroso e o carinho para com ela. Não estava ela acostumada a isso desde havia um ano e sobre isso pensou ela:

– Oh Deus! – disse ela – que pensamento distinto tem ele esta noite que não teve desde há um ano a esta noite?

E reflectiu longamente sobre isso. E depois de ela ter cavilado assim, despertou então ele por sua vez, e disse-lhe uma palavra a ela, e uma segunda vez, e uma terceira vez, mas não teve ele resposta de ela nesse intervalo.

– Por que –disse ele por sua vez – não falas comigo?

– Eu dir-to-ei –disse ela – não falei tanto em tal lugar como este desde há um ano.

– Por quê? – disse ele – Estivemos a falar diligentemente.

– Seja a vergonha sobre mim – disse ela- se houve entre nós, de um ano a ontem a noite, desde o momento em que nos metíamos entre os pregues da roupa da cama, nem divertimento nem conversa nem virares a tua face na minha direcção, não digamos já mais alguma outra coisa, que fora mais do que isso.

E então deu-se conta ele:

– Ou Senhor Deus – disse ele – obtive um amigo firme e justo na sua amizade e lealdade!

E então disse-lhe à sua mulher:

– Senhora – disse ele – Não me acuses. Deus mediante – disse ele por sua vez- não dormi e não jazi contigo desde um ano a esta noite.

E então contou-lhe toda a sua história.

– Levo-lhe a minha confissão a Deus –disse ela da sua vez – obtiveste um amigo firme no tocante a matar a tentação do seu corpo e manter a lealdade contigo.

– Senhora – disse ele- sobre isso é que estava eu a reflectir, pela minha parte, enquanto guardava silêncio contigo.

– Isso não é estranho. – disse ela da sua vez.

Pela sua parte Cabal Senhor de Dyfed é que veio ao seu reino e ao seu país. E começou a preguntar-lhe aos homens bons do seu país como fora o seu reinado sobre eles esse ano em comparação com este outro que fora antes desse.

– Senhor – disseram eles – não foi tanta a tua cortesia, não foste tu homem tão sensato , não foi tão fácil para ti repartir a tua riqueza; não foi nunca o teu critério tão bom, como este ano.

– Deus mediante! – disse ele à sua vez – é boa coisa estardes agradecidos ao homem que esteve convosco; eis a história como foi.

E Cabal relatou-lho todo.

– Sim, senhor – disseram eles- obrigado a Deus por obteres essa amizade; não nos há de minguar o governo que tivemos nós, pela nossa parte, esse ano passado , certamente.

– Não hei, Deus mediante – disse Cabal á sua vez.

E desde então em diante começou-se a fortalecer uma amizade entre eles, e cada um a enviar um ao outro cavalos e cães e falcões e toda classe de jóias que lhe parecia a cada um que prazeria ao parecer do outro. E por mor da sua estadia de aquele ano en Annwfn e pelo reinado ali tão exitoso e por conduzir os dois reinos em um mediante o seu valor e o seu pelejar, deixaram de lhe chamar Cabal Príncipe de Dyfed e chamavam-lhe Cabal Chefe de Annwfn daquele momento em diante.

 

(Tradución de Alfonso Javier Canosa Rodríguez)