Sem acudimento

0
258

Capítulo 1

Viaxe no tempoFui afora à horta por ver se a silveira precisar uma demouca, quando um homem roxo apareceu de supetão. Tão pronto como reparou em mim, berrou-me:

“Acude-me, Eric. Venha ho! Esta pode ser a tua derradeira oportunidade. Não me falhes!”

Fitei-no, surpreendido de mais para dar uma fala. Quem era este homem? Como sabia o meu nome? Como abrolhou na minha horta deste modo? E de que estava a falar?

“Não fiques a olhar para os minhatos, Eric!” bradou, a sua voz estarrecente, a sua face retorta de dovente. “Deus, ho! Quantas vezes temos de volver por todo isto? Seica te não acordas de mim?”

“Acordar-me de ti?” Barbalhoei. “Para a minha ideia, nunca na vida contigo bati. Quem és ti?”

“Que dizes de não teres nunca comigo batido? Ou Deus, já a cachei ! Se esta é a tua primeira vez que batemos, daquela isso quer dizer que este é o meu derradeiro arrandeo. Não há modo de ires ser quem de …”

Foi interrompido no meio da frase conforme piscava a sua existência, tão misteriosamente como tinha chegado. A minha horta estava como decote estivera. Acontecera todo isto realmente? Sonhara esperto ou alucinara? Aguardei uns segundos, mas a situação ficou normal. Agora, a silveira. Cecília pregara-me inspeccionar se cumpria decotá-la. Caminhei cara ao cabo da horta, desfrutando as raiolas da primavera e o ar de calmuço.

Capítulo 2

À silveira cumpria-lhe aquelá-la de vez. Dei uma volta e ia de caminho cara ao palhote quando o homem roxo surdiu de novo, de supetão, “como decote”.

“Eric,” choromicou, “louvado seja Deus que ainda estás acó. Tens de me acudir antes que seja tarde de mais.”

“És ti outra volta”, respondi. “Estiveste acó há um momento. Quem és ti? Como chimpas e te esvaeces de tal modo? E por que na minha horta?”.

“Já to disse todo isso” respondeu, acenando enfurrunhado. “Não há tempo para leriarmos sobor de todo isso mais uma vez. Preciso que me acudam, e tal semelha seres o único nesta volta.”

“Gostaria de ter algumas explicações primeiro.” Disse eu. “Acontece que esta é a minha horta e gostaria de saber o que estás a fazer acó.”

“Por Deus, Eric, estamos a estragar um tempo precioso deste jeito. Não podes simplesmente aceitar a situação tal e como é e acudires-me antes que seja tarde de mais?” Estava claramente a perder a paciência e a tornar todo alporizado, ainda que não tão arrepiado como da vez primeira. Mas, que dianho pretendia este guicho?

“Muito bem daquela,” disse eu. Se cadra deveria dar-lhe uma oportunidade ao homem. Depois de todo podia ser uma pessoa com creto à que verdadeiramente lhe cumpria acudir-lhe. “Que posso fazer por ti?”

“Olha,” disse ele, por fim soava um algo acougado. “Gostaria de que tu…” Foi interrompido no meio da frase de novo. Fitei o ar vougo e cuidei, bem, este homem parece ter um problema decerto.

Andei derredor e a modo cara ao palhote. Parecia como se fosse começar a trabalhar na silveira num chisquinho.

Capítulo 3

Estava caminho de volta ao palhote com os meus aprechos quando o homem se apareceu à vista por terceira vez.

“És ti mais uma vez”, carpiu conforme me olhou.

“Colheste-me a palavra da boca,” respondi. “Não precisas que te acudam?”

“Essa é a ideia que estou a perceber. Semelha que estou a choutar de acó para acolá desde o meu ponto de origem. Não estou certo do que deu erro, mas cuido que começo a cachar a natureza da situação.”

“Qual é o teu ponto de origem?” Perguntei. “E o que queres dizer com choutares de acó para acolá? Como devo compreender o teu apuro?”

“Estou a oscilar entre coordenadas temporais. O experimento deveu atoar espectacularmente. Se não sou quem de controlar este efeito, bem poderia acabar esbandalhado, desligado da minha âncora no espaço e tempo e esvair na nada, implodir, como se nunca eu tiver existido!”

“Lamento não ter nem ideia do que me estás a falar. Poderias-mo repetir em termos mais leigos?”

“Desculpas, não há tempo para isso. De qualquer modo, não cumpre atingir completamente a minha situação para me valeres.”

“Daquela di-me o que achas devo fazer. E de contadinho. Tendes a aparecer e desaparecer antes que possas acabar mais de uma oração.”

“Sim? Queres dizer que apareço aqui de modo regular? E simplesmente por um chisco?”

“Exactamente.”

“Meu Deus! Nesse caso…” O homem liscara. Ergui os ombreiros e apanhei os meus aprechos. Melhor pôr-me a trabalhar na silveira antes de ser interrompido de novo.

Capítulo 4

A silveira estava a meio aquelar quando o homem apareceu por quarta vez.

“Eric! Gosto de te ver de novo, ainda que não contava escorrer para acó uma outra volta.”

“Agora olha, não percamos tempo muito precioso. Di-me o que tenho de saber, e especialmente o que preciso para te acudir.”

“Acudires-me? Devo de ter feito alguns choutos inesperados no tempo, mas eu suponho que arranjarei o problema em por mim. O que te faz pensar que cumpre acudir-me?

“Isso é o que estás a me dizer. A primeira vez que te olhei, estavas mesmo absolutamente arrepuinhado. Agora, podemos ir ao miolo do assunto? “

“Queres dizer que apareci aqui por mais de alguma vez?”

“Sim, segues a volver aqui.”

O homem franziu as sobrancelhas. “Bem, isso não é boa nova. Isto só pode significar que…”

A sua voz esvaiu-se conforme semelhava perder-se em cavilações.

“Mentaste um experimento que se estragou. Não cumpre entrarmos nos detalhes, mas se é de eu te acudir, terei de saber abondo pelo menos para me guiar. Agora, se fazes o favor, di-me o que é todo isto.”

O homem fitou-me, aparvado. “Não me é permitido divulgar nada. Mas se te disse já todo isso, devia de estar verdadeiramente desesperado.”

“Disseste algo sobre choutares de acó para acolá”.

“Sim, bem, obviamente apenas presenciaste os chiscos que boto neste quadro temporal particular, ao raro mas abondo para te oferecer uma imagem completa desta missão, que che é um assuntinho secreto. Assim que por razões óbvias não te posso dizer o que acontece na outra beira dos meus arrandeos…”

O homem desapareceu, levando o seu secreto e os seus rogos de lhe acudirem com ele. O jeito em que o guicho continuava a choutar de volta, de cada vez chegando num ponto mais cedo no tempo, não era o ideal para levarmos conversações normais, para explicar situações complexas ou oferecer ajuda. Contudo, pouco lhe podia fazer eu. Tinha também que rematar a silveira.

Capítulo 5

Botei-lhe uma derradeira olhada à silveira, acaroada à perfeição, e estava a piques de carrejar de volta os meus aprechos para o palhote quando o homem surdiu mais uma vez.

“Eis o é, outra volta,” disse eu. “Agora, como te posso acudir?”

“Conhezes-me?” perguntou o homem, abraiado. “Onde é que pudermos ter batido? E em que é que me queres acudir?

“O meu nome é Eric,” disse eu. “És um visitante regular aqui. Semelhas estar a choutar de acó para acolá no tempo, e estás a desacougar por seres acudido. Bem, estavas a primeira vez que apareceste aqui. Desde o teu ponto de vista, aquela foi a derradeira vez. Ou mais bem seria a derradeira vez. É um pouco confuso.”

“Não tenho nem ideia do que estás a falar,” disse o homem, olhando-me receoso. “E estou certo de não termos batido antes. Agora, se fazes o favor, gostaria de que me deixasses ficar só e não falasses mais deste, chamemos-lhe, problema temporal.”

“Não me podes pedir que te deixe só quando surdes deste jeito na minha horta,”, objectei. “Mas aguarda um intre, aguarda um intre.”

Começava a cachar o assunto. “Quando te vi da primeira volta, tu já tinhas falado comigo numa série de ocasiões, e estavas desesperado por arranjares este teu terrível problema. Sem dúvida daquela já matinaras no que estava errado e o sério que era. Mas para ti, arestora é a primeira vez, e não tens nem ideia do que me vais dizer nas vindeiras vezes sobor de experimentos secretos que amolam a um bem amolado, e provavelmente te perguntes quem sou eu e por que te estou a dizer todo isto.”

O homem lançou-me uma olhada irritada e disse: “Francamente, não sei o que dizer. Isto está a ir longe de mais. Agora, se fazes o favor, se me desculpas, tenho que me assegurar de…”

Foi interrompido outra volta, e eu estava só de novo. Agora se esta fora certamente a primeira cambadela do homem, devera não voltar a olhá-lo mais. Aguardei uns segundos, e quando nada aconteceu fui ao palhote recolher os aprechos.

Aparentemente estivera no certo. O homem provavelmente não havia surdir mais.

Entrei de volta e alanquei a pé de Cecília, justinho vinha de tomar o seu banho.

“Ouvi-te falar,” disse-me ela, a sua fala a lindar a preocupação. “Havia alguém na nossa horta? Quem era esse homem?”

“Isso tanto tem,” respondi sossegando-a. “Não há problema nenhum. Simplesmente um guicho ao que se lhe não podia acudir. Já liscou. Não tenhas carraxe”.

Tradução de Alfonso Javier Canosa Rodríguez