Porque o mundo lhe pertence às palavras (I)

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Não é que tivera uma avaria, não foi exactamente uma avaria.

Quero dizer, oi! quem poderia predizer as consequências de uma tecnologia que parecia tão simples, tão coerente logicamente com o que conhecemos ou, conforme resultou, com o que pensávamos que conhecíamos da maneira na que funciona o mundo?

O ponto, olha, é que ainda que a tecnologia fora simples, ou assim no-lo parecia daquela, estávamos muito longe de termos esclarecido as implicações ontológicas e os resultados derivados dela.

De facto nem sequer estávamos conscientes de que havia uma ontologia da que falar, não neste nível de deterioro quântico pelo menos. Claro que falámos sobre o alto nível filosófico das implicações de traçar o mapa da actividade cerebral de palavras específicas, mesmo fazíamos brincadeiras sobre estarmos a criar o primeiro aparelho de tecno-telepatia e lermos as mentes dos demais talmente como lemos livros.

E claro que falámos da ética e meta-ética de aplicarmos uma tal tecnologia a um mundo que era em grande parte Neolítico, e das implicações no sistema judicial, da moralidade e mesmo do amor e as relações interpessoais.

Ainda que, a sério, só estávamos medindo diferenças no fluxo sanguíneo quando a mente escuta distintos tipos de palavras, e a traçarmos depois o mapa das flutuações neuronais e posteriormente a correlatividade sináptica com verbos e adjectivos.

Nada sério, realmente.

Um de nós, cuido que foi o Wilbur, disse em brincadeira que gostaria de mapear-se ele mesmo mentres meditava e recitava os sutras e não, antes de mo perguntares, ninguém o tomou a sério e nunca chegámos a traçar o mapa do verdadeiro OM.

O que fizemos foi bastante simples quando o pensas. Usámos ressonância magnética, magneto-encefalografia, aplicando um ampla gama de SQUIDs e não, não considerámos que medindo campos magnéticos tão baixos e extremadamente frouxos se chegaria a interferir com o substrato da realidade coerente.

Olha, não posso fazer-me inteiramente responsável de tudo o que sucedeu, também porque realmente não sabemos exactamente em que vão ir dar as coisas. Pode ser que tudo vá bem ao final se aprendemos a linguagem.

De qualquer modo, ao primeiro simplesmente traçámos o mapa da evidente correlação da actividade neuronal com nomes triviais como “cadeira” e “porta” e pelo estilo. Depois mostrámos-lhe aos sujeitos algumas frases nominais simples como ‘”porta marrom” e “cadeira verde”. Então a primeira coisa que descobrimos foi que não havia associação com áreas comummente correlacionadas no processamento de expressões linguísticas complexas. As áreas de Broca e Wernicke pareciam não desempenharem função nenhuma. Estávamos surpreendidos mas não sobressaltados e assim seguimos por um tempo até que, claro, o sujeito X chegou às nossas vidas.

Estou a dizer-te tudo isto porque, como poderás ter adivinhado já, vou tentar pronunciar a “palavra” e ver a onde me leva. Assim que pensei que ti, como o meu melhor amigo, gostarias de saber um pouco do “por que” de todo isto.

A dizer verdade ninguém de nós realmente entendia a correlação mais profunda das palavras com a actividade neuronal e a comunicação intracelular, com a encapsulação neuroquímica, e ainda mais importante, do estrato de interferência subjectiva do pensamento linguístico consciente com a construção da realidade computacional.

Éramos um tanto conhecedores do trabalho de Konrad Zuse especialmente no que presumíamos compreender (e descobrimos ser errado) do espaço computacional e como sei no que estás a pensar, meu amigo, deixa-me corrigir-te, os universos de rápida computabilidade NÃO são mais prováveis do que os outros, e as Máquinas de Turing simples são extremadamente raras e se quadra até não existem. Certamente não o sei, digresso.

O sujeito X era um poeta, pelo menos isso foi o que escreveu na sua ficha de candidatura, e naturalmente gostámos imenso da ideia de estudarmos as correlações cerebrais de alguém bem instruído em matéria de língua, na enorme complexidade do manejo da palavra, e também, esqueceu-me dizê-lo, de alguém que dizia conhecer várias línguas, assim que com muito entusiasmo e muito alegremente procedemos a trabalhar nele.

Leva em conta que daquela nós nem sabíamos que um conceito tal como “guerreiro poeta” existia e ainda menos as possíveis implicações duma poesia incoerente sobre a realidade. Tenho uma teoria infundada, uma especulação realmente, de que as mentes que operam com várias línguas simultaneamente, e são um fenómeno raro de facto, são uma mutação do paradigma do pensamento lateral, de alguma maneira estas mentes mantêm uma contínua diversificação de dimensões paralelas porque em certo sentido não podem esquecer a palavra que estão a procurar, é como se os termos que buscam com urgência continuaram a mutar, a se morfarem se o preferires, um no outro, usando em cada instância uma língua diferente, e pelo tanto nunca lhe falta o termo apropriado, e por este simples facto a coerência do regueiro do seu pensamento é um fluxo contínuo que nunca dorme, simplesmente flutua em intensidade e densidade.

Isto leva-me ao ponto crucial. O que sabemos agora e não sabíamos daquela era que a nossa suposição comummente aceitada de que o todo é maior do que as partes é totalmente errada e fundamentalmente incorrecta. O que descobrimos é que a relação intersubjectiva do todo com as partes é duma natureza e magnitude completamente distinta. Para simplificar: percebemos que partes dentro de todos podiam ser maiores do que o todo do que formavam parte baixo certas circunstâncias. Estas circunstâncias, como já hás-de-ter adivinhado, implicam a estratificação de diferentes línguas usando leves variações num sentido particular da percepção.

O que nos perdeu ao princípio foi o feito de tomarmos a linguagem como se for unicamente línguas verbais, foi de facto muito difícil para nós o termos que lembrar constantemente que quando falávamos de línguas o que se queria dizer era diferentes tipos de línguas, meios de comunicação de diferentes dimensões dispostos para objectivos distintos.

Não foi singelo recordar que uma representação visual duma cadeira e o termo cadeira e a verbalização sonora do mesmo termo “cadeira” não são o mesmo. Isso explica-te por que quando fizemos os primeiros experimentos não percebíamos como obtínhamos esses resultados tão estranhos, principalmente o efeito de decoerência da realidade imediata.

A linguagem da química e as moléculas, a linguagem dos campos magnéticos, de formas e coordenadas de espaços e tempos e a linguagem da energia, todas estas e muitas, muitas outras, podíamos compreendê-las, existem de modo contínuo e superposto, só uma parte vem à superfície e se situa em paralelo com as outras. Portanto o que é percebido normalmente é só superficial e aparentemente traduzido a outra língua, a diferença não só era de tipo, e pelo tanto de quantidade, mas também de qualidade.

Podes dizer que descobrimos quantidades duma sorte de dimensões esvaziadas, estas dimensões, múltiplas conforme as línguas se esvaziam umas nas outras, com o mesmo esvaziamento a lhes conceder uma coerência aparente.

Consequentemente sim, naturalmente, a realidade esgalha e re-esgalha de maneira iterativa e se eu for um filósofo como és ti, teria relembrado as linhas de voo de Deleuze, mas não o sou e não o vou ser, embora lhes deves dar aos filósofos o seu cometido, algo descobriram.

Assim que deixa-me ir directamente ao ponto no que se tornou realmente interessante. O sujeito X sentara na cadeira e estava todo encolchetado e nós sentámos e olhámos os monitores e eu tinha a minha taça de café matutino ainda a aquecer os meus um tanto frios dedos e simplesmente a modo de aquecimento pedimos-lhe que recitara alguma poesia em qualquer língua que julgasse mais vinha ao caso. Olha, nada mais estávamos que ajustando os nossos aparelhos nesse ponto, assim que certamente não estávamos preparados, quero dizer, como poderíamos estar preparados para o que sucedeu depois?

Lembras a conversa que tivemos há alguns anos sobre o computronium? Sim, claro que sim, mas lembras também a onde chegámos ao final daquela noite quando levamos a ideia ao límite, lembras que falámos da probabilidade de que a computação de seu não seja a última medida da realidade senão aquilo do que trata a computação? Noutras palavras, o que disséramos daquela e eu em primeiro não entendi mas entendo agora foi que a computação dependia da ordenação e a ordenação dependia da função especificada, do que quisermos computar.

Mas o que sucede quando a mesma função que estabelecemos para computar é uma póla iterativa do significado? Que acontece quando a ordenação mesma da matéria re-coere ela de seu continuamente para se adaptar ao desejo da função disponível que é um não-dado na poesia caótica?

Eu te direi o que sucede porque o vi com os meus próprios olhos e escutei com os meus próprios ouvidos.

O que sucede é que todas as dimensões se abrem simultaneamente e todos os significados se desligam, o tempo dissolve-se, o espaço expõe-se e a porta das percepções vira transparente e, de supetão, vês.

2 Comentários

  1. Suponho que a boa literatura toca temas universais, e provoca em nós sensações que atingem ao essencial do ser humano. A ver como segue a segunda parte. A mim pareceu-me um pouco complexo na acumulação de referências a disciplinas variadas e muito sugestivo no apartado das relações entre conceitos e actividade física. Salvando as distâncias, Recordou-me muito aos primeiros tempos da fonética acústica quando se tentava associar fonemas com ondas sonoras. Logo há temas secundários que são também mt sugestivos, e que também suponho variaram em função do leitor. Na minha leitura cuido que fiquei um pouco mais com estes subtemas, referências ao mundo contemporâneo, e parei menos no que seriam os grandes tópicos, mais vitais, mais relacionados com a própria condição humana mesma.

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