Porque o mundo… (II)

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No capítulo anterior de Porque o mundo…

Mas o que sucede quando a mesma função que estabelecemos para computar é uma póla iterativa do significado?

Que acontece quando a ordenação mesma da matéria re-coere ela de seu continuamente para se adaptar ao desejo da função disponível que é um não-dado na poesia caótica?

Eu te direi o que sucede porque o vi com os meus próprios olhos e escutei com os meus próprios ouvidos.

O que sucede é que todas as dimensões se abrem simultaneamente e todos os significados se desligam, o tempo dissolve-se, o espaço expõe-se e a porta das percepções vira transparente e, de supetão, vês.


Parte II

Meu benquerido amigo, se che pareço um algo incoerente e embrulhado é porque estou tentando escrever-che tão ligeirinho como posso antes de que aconteça… Mas para enxergares o que pode suceder preciso dar-che algumas aclarações…

Assim que antes de seguir deixa-me explicar-che a armação conceitual com a que começámos. Supusemos, como se for o caso de… de haver uma estreita correlação entre os fundamentos das verdadeiras convicções, dentro das falsas convicções e até o nível super-abstracto das convicções ficcionais que ainda que não verdadeiras são contudo altamente úteis como propriedades funcionais de aplicações não teleo-semânticas na vida do dia a dia. A razão era bem simples, demos por certa a ideia de que sem tais convicções ficcionais não podemos organizar a civilização humana actual, e ainda mais na nossa actual conceitualização do tempo, da matéria, e muito particularmente da consciência.

Percebemos bem aginha nas nossas investigações que o imaginário mental, o que é comummente chamado vivência quase-perceptual, pode permitir uma forma de mentalização vivenciada que não requer visualização mas é, por dizê-lo dalguma maneira, dabondo amorfa, ainda que o que é vivenciado é uma classe de forma – digo uma classe de forma mas o que quero dizer realmente é que é algo mais parecido com o modo no que vemos a água em movimento – se congelas a imagem do ínterim poderias dizer que a água tem forma, porém na constância das ondas não há forma definida, embora ocorre um contínuo processo de transformação duma forma na outra, e, claro, ocorre como uma progressão ininterrompida.

Esta progressão, meu amigo, de forma em forma, um movimento amorfo de diversificação, foi a chave, foi a chave para entendermos como os níveis de abstracção coerem e recoerem eles mesmos numa continuidade aparente.

Em certo modo não é distinto das metáforas conceituais. Sim! O conceito exacto do que nos ocupámos há anos ressurgiu de maneira bem chamativa.

Se lembras, as metáforas conceituais implicam que podes usar frequentemente um género de metáfora para entenderes uma outra. Mas o que chegámos a perceber por via do nosso ‘guerreiro poeta’ era que o próprio termo entender era uma metáfora, esvaziando níveis e dimensões uns nos outros. Este foi um achado importante porque era a chave do enigma.

Para daquela já estávamos bem nos domínios conceituais da poesia caótica mas ainda o não víamos, ninguém de nós podia vê-lo, que parvos éramos! Não puséramos as nossas mentes na equação do experimento pensando durante tantos anos que existe uma realidade objectiva e discreta alô fora. Simplesmente esqueceu-nos que nós somos parte da equação. Nós éramos os experimentadores mas estávamos sendo experimentados ao mesmo tempo.

Na verdade o sujeito X estava realmente a usar-nos. Não! ‘Usar’ é palavra incorrecta, porque ele não estava a fazer nada intencionalmente, ou planejado, estava simplesmente a fazer o que nós supostamente lhe solicitáramos, estava recitando poesia como lhe pedíramos. Mas nós estávamos a escutar, claro que estávamos a escutar! Esse era o objectivo geral do experimento, não sim? Escutarmos as palavras e depois traçarmos o mapa usando o fluxo sanguíneo do seu cérebro como um sinal para entendermos o modo em que a língua se mapea no cérebro.

Mas não todos os cérebros têm as mesmas conexões nem todos os domínios conceituais permitem harmonizar o mesmo tipo de realidades numa só. Claro que poderias objectar que perifericamente é bem conhecido, mas o que não acertarias a entender agora, como tampouco nós acertámos daquela, é o considerares que na sua maior parte essas diferenças de conexão são inconsequentes mas às vezes, ai! às vezes estas diferenças tornam surpreendentemente catastróficas!!!

Uso o termo catastrófico não no sentido negativo comum mas com o significado de teoria da catástrofe, porque justo como na teoria da catástrofe as pequenas variações, ainda que estáveis no tempo, permitem um dimorfismo total do cérebro específico no que acontecem. Sim ho! Claro que é aleatório a grande escala! Mas nos pormenores é altamente ordenado e pode em certo sentido ser manipulado para coerir a geometria da mente consciente e com isso dar-lhe forma ao entendimento imediato da mente em questão para ‘VER’ as metáforas a se esvaziarem no mesminho processo de transformação em dimensões não correlacionadas originalmente, em tempo real.

Imagina-o, em tempo real…

E no nosso caso o sujeito X, o guerreiro poeta, era competente justinho neste tipo de aumento auto-iterativo da mente usando as ferramentas da poesia caótica do não-dado. Mas, aguarda! Isso não che é tudo, porque se, como ti sabes, compreendes como os sistemas dinâmicos operam conjugando escalas de progressão, sabes que eliminam a direccionalidade da flecha do tempo, essa que a mais dos humanos lhes esquece esquecer perante as suas maiores capacidades, perante o seu desejo de existência.

Devo dizer que Johanna, que era, casualmente, ou se calhar não agora que o penso, a única profissional de entre nós matemática especialista na teoria do caos, foi quem mais pronto cachou as implicações dos sistemas de auto-organização. Sim, claro, todos sabíamos da correlação das equações simples com os comportamentos complexos, e todas as extrapolações metafóricas do ‘efeito borboleta‘ e pelo estilo, mas o que ela aginha compreendeu e nós mais devagar, reconheço-o agora, foi que as ligeiras variações não são físicas em e de si mesmas, são matéria sim, mas as regras de comportamento não são físicas, mas linguísticas, ou formais se o preferes. Quem poderia ter adivinhado isto? Eu não, seguro. Supô-lo-ias ti?


Já bom foi de explicações, bem sei que me entendes como nenhum outro, mas esta vez preciso bulirmos nisto. Direi-che como aconteceu e depois julgarás por ti mesmo. Mas, como um amigo, peço-che o favor de adiares a tua opinião até teres acabado de me escutar. Faz como fazemos quando olhamos um filme, uma suspensão temporal da incredulidade.

Pelo menos por um alongado momento…

Envio-che também algumas notas que escrevi durante a sessão, desordenadas, bem sei, mas poderiam ajudar-che a compreender aonde vou com tudo isto…

Os guerreiros poetas vêem padrões onde nós vemos anarquia e caos, portanto entendemos que vêem uma realidade que nós não podíamos perceber, a mesma imagem mas maior, desconhecida, teimosa em certo sentido, sem uma direcção sistemática que seguir, um domínio de ocorrências naturais…

Eram as formas, dizia ele, as formas de pólas a iterarem a sua própria ramificação numa auto-semelhança infinita, mas a escalas menores o galhar de dimensões reitera o esvaziamento da sintaxe em semântica.

Repetir a palavra poderia substituir a auto-semelhança em geometria de fractais.

Não era artificial e no entanto tampouco era sobrenatural, mas não era natural no sentido regular e do sensos comuns.

Uma arroutada se cadra, mas contudo fundamental, todos os sinais da linguagem do eterno, complexo, iterativo, multidimensional e porém tão surpreendentemente simples que chama à risa.

Naturalmente que os sistemas complexos vêm de regras simples, mas daquela a simplicidade das regras é decididamente ilusória, é o ligeiramente diferente o que faz a diferença, ai é onde a livre vontade aparece e explica como surdiu a vida e por que o cosmos é tão admirável, e por que tudo se abre quando a palavra é vem ou bem.

Algumas coisas que ele disse:

Onde quer que fora nada topava, mas ele era feliz com este vougo. Ele estava, ou tal pretendia, extasiado com isso, extasiado duma maneira que chamava primária: como as folhas recebendo as suas primeiras pingueiras de chuvisca, nada, como o amor -dizia- como sentir-se obsoleto e sentir prazer em que tudo for carente de significado… daquela ocorre a compreensão, como o correr de um rio…

Takã, Lakã, Maghakarã, Jutã, Diparkalã… Isso foi o que ele disse.

Uma viçosa complexidade lhe chamava ele… Uma funda, profunda e altamente inesperada conexão, cósmica talvez, entre a ordem e o caos e a nada.

Escrevo-che todas estas cousas acô nesta carta que che envio porque penso que precisas algumas indicações a maiores das que che dou eu a conhecer directamente…

Sei que sabes que não há problemas intrínsecos como tais, só dificuldades para manter uma realidade estratificada e evidente. Mas lembra que a essência do guerreiro poeta é uma re-ordenação desintencionada, mantém conscientemente a direcção da repetição mas não deixa emergir a ordem até um ponto arbitrário de espontaneidade consciente. E é exactamente esta espontaneidade o que eu procuro. Ocorre quando a variação é no ponto certa, quando a mutação é similar a si mesma num grau alto abundo e distante abundo.

Um ponto crítico exacto!


Derradeiro capítulo em breve…