Porque o mundo… (e III)

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Anteriormente em Porque o mundo…

Sei que sabes que não há problemas intrínsecos como tais, só dificuldades para manter uma realidade estratificada e evidente. Mas lembra que a essência do guerreiro poeta é uma re-ordenação desintencionada, mantém conscientemente a direcção da repetição mas não deixa emergir a ordem até um ponto arbitrário de espontaneidade consciente. E é exactamente esta espontaneidade o que eu procuro. Ocorre quando a variação é no ponto certa, quando a mutação é similar a si mesma num grau alto abondo e distante abondo.

Um ponto crítico exacto!

Finale

Há uma rachadura na composição do tempo, uma fenda na construção do espaço, que é por onde passam os pensamentos para nos fazerem volver, séndomos de tal feito conscientes, o acordo.

Sim, compreendo que ao não estares lá sentado connosco e observares o universo  esgaçar-se simplesmente porque alguém recita poesia, e poesia caótica ainda por riba, poderias crer que tudo isto é fantasmagórico.

Quando o nosso guerreiro poeta começou a recitar a sua poesia ao primeiro notámos que incrementava o fluxo sanguíneo na formação reticular, mas depois aconteceu algo extraordinário: o seu córtex frontal, ou pelo menos parte dele, começou a desactivar-se espontaneamente, como se estiver desconectado do conjunto da actividade mental.

Inspeccionámos as nossas máquinas e ecrãs para vermos se não  assistíamos a algum funcionamento defeituoso imprevisível e achámos, como era de aguardar, que tudo estava em ordem, assim que, contro! o que estava a acontecer?

Devagar vinhemos a perceber que o que estávamos a olhar era a linguagem como actuador  no processo de transformação da coerência, não diferente de como os antigos xamãs costumavam dizer das palavras que nomeiam as ânimas,  já sabes, isso que pensávamos era esbardalhar, e que tens de ter tino com os nomes que usas quando te referes à matéria do mundo porque … bem, basicamente porque a expressão correcta chama pela força assim nomeada.

As palavras que usou eram incompreensíveis para nós mas isso não mudou o feito de que mentres escutávamos essas palavras, esses sons, essas estranhas sílabas, a minha mente se abrira. Deixa-me reformular isto, sou um cientista afinal de contas e ti és um filósofo, assim que não podemos permitir-nos uma aproximação sem sentido dizendo o como simplesmente tal e como é, ou agora podemos? Assim que não vou dizer que a minha mente se abrira, o que vou fazer é simplesmente repetir todo o facto assim: mirei para o ecrã e disse: ‘Ou! Meu Deus! Mira! (a ninguém em particular) e de supetão o ecrã mostrava não o seu cérebro mas o meu, literalmente o meu cérebro, e eu olhava, e via as palavras saindo da minha boca convertendo-se em forças expositivas, uma paleta com formatos de linhas de reflexão, buligando umas por riba das outras e revertendo os efeitos do cérebro que estava a ver, mudando a forma do cérebro mesmo, reformulando a sua forma para algo desconhecido.

Era consciente das modificações no meu córtex visual, as cores estendiam-se elas mesmas em novos horizontes, transformando as formas em sons e os sons em factores euclidianos, reforçando de modo regular o posicionamento do meu pensamento consciente noutro sítio, primeiro no mesmo quarto e depois…

E depois eu era um observador incorpóreo, flotando confortavelmente em riba e entre as linhas da sensação, devindo caladinhamente a parte principal de uma reconfiguração do mundo, indo inexoravelmente para dentro e para fora da coerência, sem avisar a ninguém em particular, simplesmente porque não havia ninguém em particular…

Era como se o próprio significado do termo conforto, ou se calhar confortável, estivesse a colher vida, apropriando-se da realidade e remodelando-a para encaixar com o seu significado, uma força da natureza epistémica, desontologizando o imediato, deconstruindo a consistência da matéria e restaurando no seu lugar uma subtil concatenação de causas, botando para fora uma nova realidade.

É-che assim, velalô tava eu, e ao che escrever a tal hora no meu processador de textos parece quase que incompreensível, um sonho abofé, mália não ser sonho. E ainda que escrevi velalô tava eu não havia um eu do que falar, não que eu enxergara, que eu fosse; era algo distinto, uma desintegração total se preferes, ainda que ao leres estas palavras poderias pensar na desintegração em negativo, quando a realidade era que a desintegração era agradável e tudo abrangia: um momento no que de supetão a realização conceitual de um eu distribuído fugiu de supetão para uma nova dimensão da realidade existencial.

Velalô che tava daquela, e não havia um eu para o velalô, havia e ainda há um pichar de confortos; sim, sei que não faz muito sentido, o que é um pichar de confortos? Ao melhor um regueiro de prazer seria uma melhor descrição, mas ainda não satisfaria bem o estado que estou tentando descrever… de qualquer modo a sensação do momento era de que o conhecimento que está implantado na mente proto-consciente, e neste caso era o conhecimento do que é o conforto, estava a ser liberado das suas constrições sintéticas e ceivado das ligações da expressão contextual, estava a apagar a realidade, e a de-coeri-lo a um cara a uma maior coerência…

Naquele preciso momento compreendi que, ainda que é certo que o ser humano está longe de ser o centro da realidade, havíamos ser quem, baixo certas condições, de redefinirmos a autoridade do momento anulando a cláusula estar a tempo.

Não sei o que acontecerá quando diga a palavra, se quadra nada, se quadra tudo, mas desconfio de que quando a palavra humano seja pronunciada algo fundamental sobre o despotismo do tempo vá ser ceivado e há re-coerir a nossa história futura…

A minha percepção sensorial extrapolada numa visão de atemporalidade é que o humano neutralizará a nossa violência inata e virará as tábuas do destino, creio que isto é o que o guerreiro poeta queria que captássemos ao se pôr disponível para a nossa investigação.

Agora igual percebes por que vou dizer a palavra e ver a onde me leva, independentemente das possíveis consequências para o meu entendimento e alcance. São as bifurcações de momentos de inspiração como estes as que nos fazem sermos quem somos e se quadra, só se quadra, ao dizeres humano e quereres dizer uma outra cousa, a força semântica da natureza do entendimento, apoiada pela beleza, acompanhada pela paixão, capacitada pelo imediato e compreendendo totalmente o enxebre vougo sobre o que a interdependência flutua, permitirá a materialização da alteração.

Sei que muitos poucos volveram para o dizer, aguardo eu faça de outra maneira, se não por mais nada do que a necessidade de estenderes a tua existência através dos tempos, seja porque todas as grandes acções são no fundo altamente singulares e conduzem a um motivo que é outro do que o eu.

Abur meu amigo, deseja-me sorte.

HUMANO

Tradução:  afonsoxavier.wordpress.com