O talismán dos druídas

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“Para ti o hermetismo das estrelas e os fenômenos naturais ficam ao descoberto.”
Carballude Blanco, Xosé : O talismán dos druidas. Ed. Galaxia, col. Árbore, 1990 (2ª ed.), p. 98.

O argumento

“No ano 970 dos povos Nérios tudo é devastação derredor do castro nério de Aramel, ao pé do rio Ceso. O conselho de anciãs junta-se para debater sobre a fúria dos espíritos que padecem desde há muitíssimas luas. Sem druidas, dos que só queda o cego Arístides, não há já quem interprete a linguagem dos astros e os seus movimentos. Um ataque dos romanos suporia a destruição do povo nério e o conselho de anciãs debate a necessidade de volverem trabalhar as minas para se armarem, enviarem uma delegação à Gália para falar com Efrén, o chefe supremo dos druidas, ou estabelecerem uma aliança com Roma.

Arístides, o velho druida, é o único que conhece a solução verdadeira: há que ir à Fim da Terra e procurar o diamante perdido para como ele matar o Megalikós, uma fera com cabeça de dragão, tronco e coxas de homem e rabo de lagarto gigante que vive nas minas e se faz invisível aos olhos dos profanos da ciência oculta nas estrelas, no voo das aves ou na disposição dos elementos da natureza. Mas só uma pessoa é quem de levar adiante este cometido e enfrentar-se ao Megalikós: Kanerez, o acompanhante de Arístides.”

Relato fantástico em espaço de novela histórica

A partir de esta apresentação própria da melhor fantasia heróica, Pepe Carbalhude n’O talismán dos druidas, etidada por Galaxia na colecção Árbore, 99 pp. (de momento não há edição no Acordo Ortográfico) debulha uma paisagem dominada pela natureza percorrida com as aventuras de Kanerez/U-xio, um personagem totalmente imaginário, sem precedentes históricos ou mesmo literários, que terá de ir passando sucessivas provas na sua determinação por cumprir um objectivo.

Cada novo reto é uma pequena história, um relato curto com sentido de seu. Os seus personagens ligados entre si pelo percorrido do herói por um espaço identificado com o universo legendário de uma geografia occidental galega recriada, mais do que imaginada, até mesmo conseguir verdadeiras cenas de reconstrução histórica, próprias de disciplinas que procuram e se regem desde a objectividade, totalmente alheias à ficcionalidade da literatura.

Nesta linha de juntar história e fantasia o autor combina elementos da história real (por ex. deidades tiradas da epigrafia conservada hoje em dia, alusões ao mundo romano) com personagens e seres míticos inventados. Espaços legendários do mundo céltico aparecem de par de, por exemplo, o que se supõe interior de Bergantinhos, inacessível e desconhecido para o povo dos Nérios e Cáparos pela densidade da sua vegetação; ou a Terra de Montes/Taveirós, ligada às feiras e os cavalos.

Mistura-se o maravilhoso, a mera digressão fantástica a procurar o entretimento do leitor por meio da surpresa própria do mágico e irreal, com uma dimensão de novela histórica tirada de feitos, objectos e paisagens reais, contrastáveis, que nos devolvem uma realidade tal e como ela foi, com uma precisão própria de quem é, porque o é, um erudito na época na que se assenta a acção narrada.

Influências literárias explícitas: Tolkien e Pondal

A novela começa com uma cita de Tolkien, d’O Senhor dos Aneis, uma indicação clara da sua orientação. Mas acô há elementos originais, que vão mais alô da fantasia ao modo tolkenião.

Se o mundo de Tolkien pretende ser totalmente imaginário, tanto na consideração dos seus personagens (elfos, hobbits, entes, orcs …) como na sua geografia (a terra média recria um espaço fabulado, sem referência, quando menos directa, aos nossos continentes) e é só através do simbolismo ou o estabelecimento de analogias que poderiamos determinar paralelos no universo real e presente, em Carbalhude estamos ante uma obra que nos apresenta um mundo facilmente reconhecível, um espaço que podemos percorrer hoje em dia com nomes que o identificam inequivocamente.

E aqui radica uma das grandes contribuições de esta novela: o modo de recriar essa geografia é pondalião. Pepe Carbalhude está a entroncar directamente com a melhor tradição literária, juntando a Pondal e Tolkien de maneira absolutamente magistral.

Entrar na descrição das peripécias e aventuras suporia adiantar informação que privaria ao leitor da emoção da leitura. Procede melhor comentar exemplos de elementos secundários, independentes da evolução da narração. Por exemplo, os nomes próprios.

O uso de antropônimos inventados com sonoridade exótica (Monderak, Tom uk Morvak, Goibniu, Hopper-Kull) ou a re-elaboração –aparentemente sem uma regra definida- de termos que guardam uma certa similitude com línguas antigas (v.g. personificações da natureza ao modo de Gren, Selene, Domnu, Loche; topônimos como Nemeton por Monte Neme e antropônimos como Numed e Noembal), é recurso mais freqüentado por Tolkien ainda que haja exemplos também em Pondal.

Os antropônimos procedentes da toponímia (e antroponímia) como Gundar e Valdomir, a querença pelos personagens helênicos (Arístides, Tísias, Euro) e a procura de sonoridades ou disposição de nomes do âmbito lingüístico galego na procura de uma suposta maior semelhança à escrita da línguas célticas (U-xio), entram na linha da tradição mais pondaliã.

Para alem do recurso meramente lingüístico, a toponímia e a sua paisagem têm um significado de seu. Como em Pondal, são o vencelho profundo no que permanece viva a essência do mundo que se pretende recriar, porque seguem ainda hoje em dia presentes, e é com o poder da literatura que ganham de novo toda a sua força, que nos transmitem a mensagem procedente da noite dos tempos. Eis mais uma similitude com Pondal.

E mais do que mera similitude. Por momentos a prosa parece directamente inspirada na poesia do bardo da Ponte-ceso.

Assim o rio que corre de par do castro que protagoniza a novela chama-se o Ceso e ‘murmura os cantos monocordes dos primitivos himnos celtas’(p. 29), uma referência evidente ao monótono fungar do confim dos verdes castros do himno pondalião, ainda mais clara (p. 94) quando se diz que o rio é ‘só inteligível aos bons e generosos’.

O próprio Pondal aparece na obra como um personagem muito secundário quando de novo o Ceso, no seu gurgulhar, vaticina ‘o nacimento do bardo pátrio’ (p.94).

Três naturezas

Esta clara influência pondaliã reflicte-se também na aparição de uma conexão íntima e profunda com a natureza, tanto, que a topamos descrita com um detalhe, com um cuidado, com uma atenção que por vezes parece estamos ante um relatório elaborado por um botânico.

Cada paisagem é identificada pela sua flora. Ao leitor ou leitora atentos proponho-lhe repararem em como conforme evoluem os cenários assim também a flora e a fauna; não como simples complementos descritivos, não, mas como elementos que conformam um significado simbólico: locações mais exóticas têm também plantas e animais mais exóticos.

Mesmo o argumento principal que desencadeia a evolução das aventuras poderia descrever-se como a procura do equilíbrio natural roto, descrito na paisagem inicial: a observação da devastação e a morte dos animais interpreta-se como augúrio de catástrofes ainda maiores. É a própria natureza a que requer e provoca a acção heroica.

E toda acção requer um narrador. Uma espécie de bardo, garda do conhecimento heróico e druídico, acô a falar em prosa para nos adentrar, subtilmente, sem deixar a narração épica do argumento principal (esta é, principalmente, uma novela de aventuras), no conhecimento da natureza. Como Karenez/U-xio, o leitor é convidado a descobri-la, com os seus nomes, nas plantas, nos animais, nos elementos inanimados da Terra e no céu: ‘descobriu o Carro Grande com as suas sete estrelas. Debaixo, o Carro pequeno com uma enorme Estrela Polar brilhante…'(p.87) E aqui é onde radica outro dos pontos a destacar da obra: há três formas distintas de natureza.

Primeiro existe uma natureza selvagem, visível nas paisagens, na fauna e nos pássaros bravios, similar à do bardo bergantinhã que busca o rebordão, o livre, o que arreda do homem.

Em segundo lugar há uma outra natureza mágica, que não responde às leis convencionais do nosso cosmos, maravilhosa, sobre-natural daquela, permita-se-me a contradição terminológica, de animais personificados ou seres fabulados como na obra de Tolkien. É a natureza identificada com o género fantástico. Existe apenas na literatura.

E finalmente, e sobretudo, e predominantemente na obra de Pepe, há uma reconstrução de uma natureza usada por uma sociedade num momento histórico determinado. Ao serviço dos seres humanos: como fonte de conhecimento druídico (nas ervas e astros particularmente) ou mero instrumentos dos personagens que a tem à sua disposição como caça, como cultivo, como materiais. E esta última recriação faz-se desde um conhecimento profundo da sociedade do momento, como se um naturista estiver a descrever o eco-sistema criado pelo ser humano de há dois milênios usando as técnicas da melhor novela histórica.

Público

Em todos os sentidos esta obrinha é um relato que, de acordo, pode ter sido concebido para um público juvenil, mas acho uma delícia não só para adultos em geral, mas particularmente para quem tenha certos conhecimentos da tradição literária galega pondaliã e o mundo céltico.

E sobretudo para quem queira aprender da antiga relação do ser humano com a natureza por via da aventura e a fantasia.

Reli três vezes e segue a surpreender-me.

Apêndices que podem ser útiles

INDICE DE TERMOS CLASSIFICADOS POR ORDE DE APARIÇÃO COM ALGUMAS LIGAÇÕES E ESPECIAL ATENÇÃO AOS MAIS AMBÍGUOS OU DE SIGNIFICAÇÃO MENOS CLARA.

Para melhorar a compreensão e mesmo ajudar a resolver a ambigüidade adapta-se parcialmente a grafia.

Materiais
Astronomia e fenómenos naturais

Foi particularmente de muita utilidade para os seguintes dois glossários o dicionário on-line Estraviz.

Animais
Plantas